Fábio de Barros Araújo
Publicado em 14/02/2008 às 21:20

Eu te amo, mas você ama carne

Muitos relacionamentos acabam devido aos conflitos referentes à religião, ao dinheiro (normalmente à falta dele) e ao sexo. São situações que, a princípio, podem ser conciliadas facilmente, mas com o passar do tempo tornam a presença do par insuportável, levando à ruptura da relação.

Um outro elemento está fazendo a diferença ultimamente. Nos Estados Unidos, a separação causada por divergências à mesa é cada vez mais comum.

Dividir uma refeição com a pessoa amada é um ritual sagrado em qualquer relação, além de servir de metáfora para o amor. Vivemos numa época onde as pessoas também se definem pelo que comem, seja por recomendação médica, seja por estilo de vida, ou apenas por gosto mesmo, onde a culinária tornou-se um importante elemento a ser considerado na manutenção de relacionamentos.

“Eu conheci um rapaz em Seattle que me achou maravilhosa, mas ele gostava muito de pão, e não poderia continuar saindo comigo”, disse ao jornal The New York Times a escritora Shauna James, de Washington, 41 anos, que por restrição médica, não pode comer glúten, encontrado em trigo, cevada e centeio.

É o mais novo desafio das relações do século 21: conciliar as diferenças, não só da cama, carreira ou da Igreja, mas também da mesa de jantar.

É como se fossem criados novos grupos étnicos, a partir da culinária. O escritor Anthony Bourdain pega (bastante) pesado, em seu livro ‘Kitchen Confidential’ (Cozinha Confidencial), onde chama os vegetarianos e sua “facção Hezbolah anti-carne” de “inimigo de todas as coisas boas e decentes do espírito humano”.

Em geral, vegetariano é aquele indivíduo que não come nenhuma espécie de carne, assim como seus derivados, como o leite e o queijo.

O corretor de imóveis da Flórida Benn Abdalla, de 42 anos, disse que prefere “sair com vegetarianas” porque os ‘comedores de carne’ cheiram mal e tem pouca energia.

E tem gente que releva valores morais e até hedonistas, em favor do prazer gastronômico irrestrito. June Deadrick, uma lobista de 40 anos do Texas, disse que ela teria sérios problemas se tivesse que sair com quem olhasse feio para queijos artesanais e pratos multi-étnicos que tanto aprecia. “E estou falando de queijo de vaca e não aquele coisa horrenta feito de soja”, desabafa ela. A propósito, June está solteira.

Em sites como o www.chowhound.com e www.slashfood.com, é comum mensagens postadas dizendo serem mais propensas a namorarem pessoas que se abstêm dos prazeres da gula por restrição médica ou orientação religiosa, do que os que são “refugiados da comida” por mero capricho.

Nesse fatwa gastronômico, existe uma severa discriminação dos vegetarianos “voluntários” em relação aos que são forçados a serem ‘vegans’ (como eles são conhecidos por lá), por motivos médicos ou religiosos.

Mas a psiquiatra novaiorquina Susan Saffe faz o alerta: “se você não consegue permitir ao seu parceiro liberdade do que irá ou não comer, provavelmente o problema não é a comida”. Isso tem a ver com a velha máxima que regula a longevidade das relações: tolerância e respeito. Assim como nas outras situações de um casamento, saber respeitar o jantar alheio emparelha-se como respeitar a escolha de ir à um culto religioso ou ir à uma partida de futebol do seu time favorito.

“Fazemos uma coreografia na cozinha, na hora do jantar”disse a vegetariana Dynise Balcavege, uma publicitária de 42 anos da Filadélfia. Seu marido, John Gatti, de 53 anos, é omnívoro (que se alimenta de carne e seus derivados), e vivem felizes há 7 anos. “Ele é adulto e respeita as minhas escolhas, bem como eu as dele”.

Os dias atuais são marcados por refeições rápidas, de baixa qualidade, sem tempo para a tradicional mesa posta, onde além de se alimentar, as pessoas conversavam e discutiam as trivialidades do dia-a-dia.

É cada vez mais raro os pais sentarem à mesa com os filhos, no jantar, para saber como foi o dia, como foram na escola e o que vão fazer no final de semana. Na Itália, principalmente ao norte, em cidades como Parma e Milão, sentar-se à mesa para jantar é um verdadeiro ritual, com a sucessão de vários pratos, vinhos e muita, muita conversa, por horas a fio.

Muitas vezes, esse apartheid culinário serve apenas de pretexto para esconder outros problemas de relacionamento. Muitos conflitos familiares são comuns onde as pessoas não se agrupam para conversar e se conhecerem melhor. Afinal, não existe nada melhor do que o carinho, aconchego e a comidinha da mamãe para apaziguar um dia corrido e estressante. E aquela máxima de segurar o cônjuge ou namorado pelo estômago está cada vez mais levada a sério.

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Fábio de Barros Araújo

é advogado, tem 34 anos, formado em Direito pelo Unipê, em João Pessoa-PB, em 1995, com especialização em Mediação, Negociação e Arbitragem, pelo Instituto Brasileiro de Mediação, em São Paulo. Assessor Jurídico da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de João Pessoa, também tem como área de interesse o direito internacional, ambiental, imigração e comércio exterior, fonte dos textos que abastecerão semanalmente a coluna no Paraíba News.

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