Fábio de Barros Araújo
Publicado em 05/05/2009 às 17:11
O ano sabático de Cássio
Nos Estados Unidos, principalmente no meio acadêmico, é comum estudantes e profissionais se afastarem, por um ano, de suas atividades profissionais e seus estudos, para que possam refletir melhor sobre o rumo de suas vidas.
O termo sabático tem origem hebraica. Vem do vocábulo ‘shabat’, que significa descanso, repouso. Para os judeus, o descanso sabático significa a pausa completa de suas atividades entre os crepúsculos da sexta-feira e do sábado de cada semana.
O conceito de ano sabático, como hoje é conhecido, tomou forma nas universidades americanas. Após longo período de estudos, alunos e professores começaram a ganhar o direito de se ausentar por um ano. O objetivo era cuidar de si e estudar outras matérias, sempre almejando um enriquecimento intelectual ainda maior.
No âmbito empresarial, o termo foi adaptado para um intervalo na vida pessoal e profissional. A idéia parte do princípio da empresa negociar um período de recesso em troca de um profissional mais dedicado, motivado e com fôlego redobrado.
Ao contrário do que muitos imaginam, principalmente no Brasil, onde cultiva-se o a cultura do quanto menos trabalho melhor, e do hábito de “imprensar” os incontáveis feriados em nosso calendário, o termo sabático por lá não associa-se à falta de produtividade, perda de identidade pessoal ou mesmo às férias. A idéia é que profissional, uma vez incentivado, possa se dedicar a um projeto particular seu, mormente impossibilitado por uma agenda de estudos e trabalhos cada vez mais espremida.
Ao comunicar aos seus pares que irá passar uma temporada de estudos nos Estados Unidos, o ex-governador da Paraíba Cássio Cunha Lima está apenas se fazendo valer de uma prática perfeitamente aplicável a ele, uma vez que exerce cargos políticos ininterruptamente há mais de vinte anos.
Para aproveitar esse período, cujo objetivo é aprimorar o inglês, nada mais sensato do que ir passar uma temporada de estudos na América. Uns podem achar uma perda de tempo ou uma viagem desnecessária, já que ele poderia estudar a língua do Tio Sam em alguma das boas escolas existentes no Estado. Acontece que, para quem o tempo é tão valioso, a velocidade e qualidade cognitiva de uma língua estrangeira em sua terra natal é avassaladoramente maior. E num mundo cada vez mais globalizado, onde o inglês transformou-se involuntariamente na língua oficial, a fluência nesse idioma tornou-se essencial aos líderes empresariais e políticos de todo o mundo.
Talvez até alguém ainda ache estranho a escolha da insossa Cincinnati para essa jornada, ao invés da badaladas Nova York, Miami ou Los Angeles. Mais uma vez, a opinião de quem já esteve lá: terceira maior cidade do estado de Ohio, encravada no meio-oeste americano, Cincinnati é uma daquelas típicas cidades americanas, comumente vista em filmes de sessão da tarde. Com uma população parecida com a de Campina Grande, com cerca de 380 mil habitantes, foi considerada a cidade de interior mais charmosa dos Estados Unidos, segundo Winston Churchill.
Nada melhor do que imergir na cultura de outro país fincando os pés numa típica cidade americana, onde os locais penduram abóboras nas janelas das casas no final de outubro, se juntam às segundas-feiras à noite em frente da tevê para ver futebol americano e festejam o dia dos namorados em fevereiro.
Outro aperitivo: pertinho de lá, na não menos gelada Cleveland, existe um dos maiores centros cardiológicos do mundo, onde, nos anos 80, comumente o ex-presidente João Batista de Figueiredo costumava se consultar. Eis uma oportunidade de ouro para o ex-governador prevenir ou até curar as feridas do coração, pelo menos as feridas curadas com os tratamentos médicos convencionais. Já em relação às “outras” feridas do coração, que porventura possa ter colecionado nesses anos todos de político, talvez seja melhor uma temporada na cidade de interior mais charmosa do Brasil – pelo menos deve ser na opinião de Cunha Lima – Campina Grande, sua terra natal.
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Fábio de Barros Araújo
é advogado, tem 34 anos, formado em Direito pelo Unipê, em João Pessoa-PB, em 1995, com especialização em Mediação, Negociação e Arbitragem, pelo Instituto Brasileiro de Mediação, em São Paulo. Assessor Jurídico da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de João Pessoa, também tem como área de interesse o direito internacional, ambiental, imigração e comércio exterior, fonte dos textos que abastecerão semanalmente a coluna no Paraíba News.http://paraibanews.com/author/fabio
fabiodebarrosaraujo@hotmail.com
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06/05/09 às 10:42
Caro Fábio, parabens pelo texto, muito oportuno, acredito que seus comentários a respeito da matéria que acabei de ler, servirão tambem para muitos que ainda nao pensaram em se afastarem de suas atividades ou dedicações laborais, para uma reflexão e aprimoramento de tudo que se faz necessario a uma melhor reciclagem e até mesmo de descanço esperitual, tanto no que diz respeito ao aspecto profissional como tambem de ser humano, o que só vem valorizar não somente ao próprio, mas também a todos aqueles que os rodeiam.Parabens amigo, sucesso sempre,LAURIMAR.
15/05/09 às 2:53
Como sempre, um texto formidável. Parabéns, Fábio. Você nos enriquece a cada dia com essas informações sobre a cultura tão conturbada – e porque não dizer esquisita – desse povo judaico-norte-americano. Porém, sabemos que a ida de Cássio para se ‘hominizar’ em terras americanas tem outros objetivos, né? Abraços e parabéns sempre. Jorge Rezende