Mauro Marolla
Publicado em 09/02/2010 às 14:09
Comunicação relacional
“Quando um arqueiro erra o alvo, vai buscar o erro dentro de si. Se você não acerta na mosca, não é culpa do alvo. Para melhorar a sua mira, melhore a si mesmo”.
Gilbert Arland.
Outro dia conversava com um músico profissional e lembrei-me de uma entrevista com Fred Mercury, saudoso cantor da banda de rock Queen, em que ele dizia que seu grande temor ao fazer um show ao vivo era ficar sem o retorno e não conseguir ouvir sua voz enquanto cantava. Para ele, era fundamental poder ouvir a si mesmo e fazer os ajustes necessários para que a música saísse do jeito que ele queria em um determinado show.
Da mesma forma em nossa vida, não temos como editar nossas palavras, ações ou escolhas para ver como vão ficar e depois emiti-las. Tudo é feito ao vivo (isso se chama vida) e não dá para apagar o que já foi dito ou feito. Podemos até nos arrepender e pedir desculpas, mas, apagar, é quase sempre impossível. Tudo é registrado.
Normalmente, quando falamos ou fazemos algo, é tão comum nos concentrarmos na ação em si, que não percebemos quando erramos ou agimos de forma inadequada, como o cantor que emite uma nota desafinada, mas não percebe, por estar sem o retorno do som. Parece que entramos num modo “piloto automático”, agindo de acordo com um modelo mental que emoldura nosso comportamento em uma determinada situação. É o que chamamos de paradigma. Nesses momentos comuns da vida, corremos o risco de não nos questionarmos, de não fazer uma autocrítica sobre o que falamos ou fazemos.
Muitas vezes, estamos tratando de um determinado assunto, seja em casa, no trabalho, em uma reunião social ou em qualquer outra situação comum da vida e, sem perceber, nosso tom de voz, nossa expressão corporal e nosso olhar se alteram bastante, passando às pessoas ao nosso redor uma sensação de “agressividade”, levando-as, inconscientemente, a uma posição de defesa de suas idéias e ações, mesmo quando o assunto não era tão contundente assim. Isso não é verdade, por exemplo, quando um casal começa uma conversa sobre uma decisão importante que precisam tomar? Talvez a compra de um imóvel, a forma de educar os filhos, o ajuste no orçamento da família, em que casa vão passar o natal ou o réveillon, enfim, qualquer assunto em que haja dois pontos de vista diferentes, sem perceber, a forma como começam a comunicar suas idéias se altera, de um diálogo, para uma defesa quase mortal de suas opiniões. E, em pouco tempo, o assunto que estava em questão sai de cena e a discussão agora é sobre quem tem mais importância, mais valor, quem tem mais conhecimento, mais força, quem é mais inteligente, que lado da família é melhor e por aí vai. Agora já não se conversa mais; o objetivo é ferir o outro com uma dor maior do que a que sofreu. Isso é o que chamamos de comunicação relacional.
A comunicação relacional é tão importante, que afeta todas as áreas de nossa vida. É ela que está por trás de nossas reações e respostas automáticas. Você já viu o acontece quando duas pessoas colidem um automóvel e uma delas desce acusando a outra de ser a responsável? A resposta é imediata. Em poucos segundos surgem os gritos, palavrões e ofensas, quando não evolui para uma agressão física e até morte. O problema não é mais o carro e o dano financeiro, mas a necessidade de defender meu valor como pessoa.
E como isso pode ser resolvido? Como dizia o filósofo Sócrates, o primeiro passo é conhecer a si mesmo. Como você reage nas situações de crise? Quais são os gatilhos que disparam seu “piloto automático”? Uma ferramenta útil para esse autoconhecimento é ligar o “retorno”; parar de simplesmente reagir e passar a Identificar as percepções que geramos nos outros. Desenvolva o hábito de parar antes de uma resposta ou reação imediata e pergunte a você mesmo: “Como estou agindo”? “Como estou reagindo”? “Como estão recebendo minhas palavras e atitudes”? “As pessoas entenderam o que acabei de dizer, do jeito que eu quis dizer”? Esse mecanismo nos ajuda a estar no controle de nossas emoções, evitando que o inconsciente reaja por conta própria. Assim, não ficamos reféns de nossos paradigmas e podemos transmitir o valor que as pessoas tem, mesmo quando não concordamos com suas atitudes. Isso é especialmente útil para dentro de nossas casas, no relacionamento com nossos cônjuges, filhos e pais.
Podemos treinar nossas emoções para que nosso tom de voz, nossa expressão facial e corporal reflitam aquilo que realmente estamos querendo dizer. Às vezes, um suspiro, um sorriso, um olhar brando, dados na hora certa, mudam o clima de todo um ambiente e facilitam nossa comunicação. Via de regra, se alguma coisa em uma situação não me agrada, antes que tentar mudá-la, procurar dentro de mim o porquê daquele incômodo é mais sábio que acusar aqueles que estão ao meu redor.
Você tem utilizado o seu “retorno”? Um dos autores do início do cristianismo, ao escrever uma carta para seus amigos de uma antiga cidade chamada Corinto, deu o seguinte conselho: “Se vocês se examinarem cuidadosamente,…, não precisarão ser julgados e punidos”. Uma boa parte dos problemas de relacionamento que temos poderia ser evitada, se fôssemos mais atentos às nossas próprias reações e treinássemos nossa autocrítica.
Agora mesmo, como está seu rosto? Por onde andou sua mente enquanto lia este texto? Que conexões e associações você fez que podem ter dificultado a compreensão de alguma parte do assunto?
Vamos sair do “piloto automático” e ligar nosso “retorno” para ouvir o que as pessoas estão nos dizendo? O que você acha? Temos um encontro semana que vem, ok?
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Mauro Marolla
Conselheiro Familiar – João Pessoa, PB. Cientista da Computação, Físico e Teólogo. Coordenador para o Nordeste da Universidade da Família.mauro.marolla@terra.com.br
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23/03/10 às 7:53
Senhor Mauro,
bom dia!
Gostei bastante da sua entrevista no dia 22/03 no SBT e fiquei curiosa em saber se o senhor atende adolescentes em algum lugar próprio (ou seja, particular.
Aguardo resposta
Cláudia