Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 30/05/2008 às 11:57 - 291 exibições
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A Liberdade e a Ambição

Do lado esquerdo, um senhor alado encontra-se sentado na janela, com o braço esquerdo estendido. Rosas preenchem as paredes onde ele está, e a luz completa o tom singelo deste lado do quadro. Este senhor franzino e nu é a Liberdade. No canto oposto, ou seja, do lado direito, está um rei corpulento e com ar de superioridade, bebendo algo em uma luxuosa taça de cristal, amparada em sua mão direita. Na outra mão, podemos perceber que sustenta uma jarra coberta por pedras preciosas. Este rei, sentado em uma confortável cadeira e vestido com tecidos nobres, é a Ambição. No centro do quadro está um cachorro, protetor da ambição, que ameaça a Liberdade.

a-liberdade-e-a-ambicao.jpg O quadro “A Liberdade e a Ambição” (Foto)  foi composto em cima dos antagonismos existentes entre a liberdade e a ambição. Acreditamos que ninguém livre pode ser ambicioso, assim como ninguém ambicioso é livre. A Liberdade tem asas, é leve e está somente de passagem. A Ambição é corpulenta, inerte e permanecerá neste canto escuro e úmido por séculos. A Liberdade anda nu e só. A Ambição tem guarda-costas e se veste de forma extravagante. A Liberdade sabe que é livre, a ambição sempre almeja ser algo mais.
Vivemos em tempos onde a ambição e a liberdade se confundem. Somos instruídos, desde pequenos, a crer que o dinheiro traz consigo a liberdade e que somente com ele seremos livres. Assim, naturalizamos a competição, desejando a qualquer custo os cargos de chefia. Vivemos em batalha, consigo e com o próximo, com o único intuito de saciar nossa vontade de poder. Moldamo-nos, reproduzimos valores e posturas, vestimo-nos “adequadamente”, compramos objetos diversos e inúteis, por fim, materializamos o que cremos ser a liberdade. Porém, nunca estamos satisfeitos.
O erro consiste em crer que a liberdade é algo a ser alcançado, através de ações que visam o poder e o dinheiro. Pensar assim é negar a liberdade que há em nossa volta, na vida que pulsa na natureza e nos insetos que habitam nossas casas. Quem, por mais dinheiro e poder, pode dizer que a pequena aranha que tece sua teia não é livre? Ela certamente já se encontra livre, não necessita de mais nada para se sentir assim. Poderíamos perguntar enfim, o que é a liberdade?

Para Krishnamurt, filósofo indiano, “a liberdade não é uma idéia intelectual de que nos servimos como fuga à nossa escravidão, nosso sofrimento, nossa entediante rotina diária (…) a liberdade não se obtém por meio de busca, pois não se pode procurar a liberdade – ela não é para ser achada.” Para sermos livres, basta compreender nossa insignificância no mundo, enquanto uma simples existência que habita e perpetua a vida na terra. Assim sendo, ser livre significa respeito, amor e reciprocidade a tudo que também é vivo. É respeitar sua singularidade, sem que para isso, seja necessário extinguir a individualidade alheia. Ser livre é ver-se como livre. Não é preciso almejar, conquistar nada.

O ambicioso não pode ser livre, pois nunca cessa sua ânsia de conquista, não há um ponto final. Ele sempre desejará mais, seu único objetivo é ser ver rico e numa posição social respeitável, e quanto mais alto subir, tanto mais sofrimento causará a outros, pois para galgar posições, terá de competir, de ser cruel.

Influências Estéticas do Quadro

Os modelos do rei e do cachorro foram retirados de um quadro chamado “O Rei Bebe!”, do pintor Jacob Jordaens, realizado entre 1640 e 1645. O quadro retrata um festejo em homenagem ao rei chamado o Dia da Epifania, comum em muitos países europeus católicos até os dias atuais.

Já o rosto da Liberdade (e somente o rosto), foi reproduzido do quadro do pintor holandês Rembrandt, chamado “Jacob Abençoando os Filhos de José”, de 1656. A escolha de um modelo de um quadro de Rembrandt foi simbólica devido à trajetória singular da vida do pintor. Rembrandt conheceu a glória aos 30 anos de idade. Ficou rico e famoso, tendo montado um atelier em Amsterdam. Retratou os bem sucedidos burgueses, e se o quadro levava o nome do pintor, aumentava o prestígio do retratado.

Com o passar dos anos, Rembrandt conheceu o fracasso. Os burgueses esperavam ver nas paredes de seus domicílios quadros que retratassem o dono da casa, a dona da casa, os filhos, os criados, as roupas, os objetos de uso, os móveis, os animais de estimação e até a comida. Entretanto, Rembrandt elaborava, através de suas pinturas, análises das almas daqueles que retratava, pintava o que queria, o que via e sentia. Devido a isso, começaram a rarear as encomendas, pois ninguém queria pendurar em sua sala críticas sobre si mesmos. Desta forma, o pintor chegou miserável ao fim da vida, aos 63 anos. Embora renegado e incompreendido, não deixou de fazer o que queria. Foi, definitivamente, um homem livre.

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Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

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