Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 21/05/2008 às 14:47 -

A Narrativa das Histórias em Quadrinhos

Gostaríamos de salientar, neste artigo, o potencial artístico de uma linguagem que ainda é negligenciada por boa parte da sociedade brasileira, principalmente pelos intelectuais: trata-se da linguagem das Histórias em Quadrinhos.

Inicialmente, os quadrinhos foram atacados como instrumentos capazes de deformar os valores morais de jovens e crianças, que, por lerem quadrinhos apresentavam as mais variadas anomalias de comportamento, tornando-se cidadãos desajustados.

Atualmente, esse discurso foi modificado, tornando-se bem menos tendencioso e preconceituoso. Devido a isso que, em muitos países (inclusive o Brasil), os próprios órgãos oficiais de educação passaram a reconhecer a importância de se inserir as histórias em quadrinhos no currículo escolar, desenvolvendo orientações específicas para isso.

A partir de então, diversos estudos foram elaborados para demonstrar a complexidade artística e cultural que os quadrinhos possuem. Portador de uma estética rica e complexa, contêm elementos diversos, exclusivos de sua linguagem. Devido a isso, escolhemos um desses elementos para analisarmos neste artigo, exatamente o que se trata da narrativa das histórias em quadrinhos.

Na linguagem dos quadrinhos a forma como transcorre o tempo e o espaço na narrativa difere de qualquer outra linguagem. Especificamente nos quadrinhos, essa transição ocorre a partir de imagens justapostas em seqüência, onde cada qual representa um momento diferente no tempo e/ou no espaço da narrativa. As imagens, desta forma, representam um descontinuum que, na imaginação do leitor, torna-se continuum, como analisou Umberto Eco, em seu livro Apocalípticos e Integrados.

De acordo com o autor, é possível falar em leis de montagem para explicar a relação entre os sucessivos enquadramentos. Todavia, estas leis de montagem dos quadrinhos se dariam de forma especial, pois “a montagem da estória em quadrinhos não tende a resolver uma série de enquadramentos imóveis num fluxo contínuo, (…) mas realiza uma espécie de continuidade ideal através de uma factual descontinuidade.”

Desta forma, apesar da narrativa dos quadrinhos ser efetuada através da justaposição de imagens seqüenciadas estáticas, ela se desenvolve num fluxo contínuo que só ocorre na imaginação do leitor. De acordo com Eco “O leitor (…) solda esses elementos na imaginação e os vê como continuum – esse é um dado mais evidente, e nós próprios, ao analisarmos a nossa página, fomos levados a resolver uma série de momentos estáticos numa cadeia dinâmica.”

É possível definir o local exato onde ocorre esse processo. Segundo McCloud, a sarjeta (espaço em branco que há entre um quadro e outro) seria este espaço imaginativo e subjetivo onde acontece o fluxo contínuo elaborado pelo leitor. Sendo assim, é correto afirmar, que o leitor será o responsável por construir a ação da narrativa quadrinhística em sua imaginação, participando de maneira direta sobre a narrativa. Nesta linguagem, mais do que em qualquer outra, o leitor é, efetivamente, o protagonista da obra.

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Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

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( 1 ) » “A Narrativa das Histórias em Quadrinhos”

  1. Rodrigo Motta:

    Opa, ótimo texto. Curto, sintético, bem fundamentado e um tapa na cara de quem não considera os quadrinhos como uma forma de arte de valores únicos.

Comentário do Leitor*