Célia Leal » Colunistas
Publicado em 03/06/2008 às 20:33 -

Alguma coisa está fora de ordem

O escritor Ariano Suassuna em uma matéria publicada num jornal sobre o chamado forró estilizado, que está lotando casas de show e praças públicas, principalmente nas cidades interioranas do Nordeste, ficou escandalizado ao ouvir algumas das músicas de várias bandas que seguem essa linha grotesca, do achincalhe e da desmoralização a mulher.

As suas considerações renderam críticas e durante uma das suas aulas-espetáculo, ano passado, ele foi bastante criticado, por ter ‘malhado’ uma música da banda Calipso, apontada de mau gosto. Quando mostraram a Ariano algumas letras das bandas desse tipo de ‘forró’, ele exclamou: ‘Eita, que é pior do que eu pensava’. Do que ele pensava e do que muito mais gente jamais imaginou.

Para conhecer algumas letras e as respectivas bandas, Ariano foi na fonte e lá se deparou com “Calcinha no chão” (Banda Caviar com Rapadura),“Zé Priquito” (Cantor Duquinha), “Fiel à putaria” (Banda de Felipão Forró Moral), “Chefe do puteiro” (Banda Aviões do forró), “Mulher roleira” (Banda Saia Rodada), “Mulher roleira a resposta” (Banda Forró Real).

Encontrou também “Chico Rola” (Banda Bonde do Forró), “Banho de língua” (Banda Solteirões do Forró), “Vou dá-lhe de cano de ferro” (Banda Forró Chacal), “Dinheiro na mão, calcinha no chão” (Banda Saia Rodada), “Sou viciado em putaria” (Banda Ferro na Boneca), “Abre as pernas e dê uma sentadinha” (Banda Gaviões do forró), “Tapa na cara, puxão no cabelo” (Banda Swing do forró) entre tantas “pérolas” desta artilharia que anda povoando a mentes de quem, parece não pensa, desconhece a boa música brasileira. Diante de todas essas possibilidades, Ariano Suassuna disse que toda essa esculhambação tem uma origem.

Veja o que escreveu o mestre:

‘O culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. “ Faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se.

Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas do turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde.

Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos Alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.

Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é “ E vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos, não precisa dizer mais nada.

A minha opinião comunga com a do mestre e de tanta gente que gosta da boa música brasileira. O que percebo é que essas “músicas” incentivam e estimulam a violência; tornam as relações banais e fazem acreditar que a porrada e a falta de respeito entre as pessoas estão “na crista da onda”. Neste sentido, a vida perde toda a sua essência. O que nos move é o princípio do prazer.

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Célia Leal

Célia Leal - Jornalista e Relações Publicas, graduada pela UFPB. Como repórter durante 15 anos, foi premiada algumas vezes. Já tendo atuado com destaque nos jornais A União, Correio da Paraíba e O Norte, além ter assessorado vários sindicatos, políticos e ONG,s. Também foi produtora e editora da Revista Mosaico, redatora do Portal Correio e do telejornal Cidade Revista.

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jornalista.celialeal@hotmail.com

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( 7 ) » “Alguma coisa está fora de ordem”

  1. Wellington Costa:

    Será que as autoridades teriam coragem de prender algum cidadão caso este realize algum protesto contra a desmoralização do forró nordestino? E se este protesto consistir em este utilizar um carro de som e sair pela cidade repetindo as letras das músicas que as próprias autoridades contratam para animar festas públicas?

    Radialista e Jornalista

  2. CRISTINA NÓBREGA:

    Concordo plenamente com o artigo.
    As músicas são de um mal gosto tremendo.
    Jamais comprarei ou assistirei qualquer show que
    esses grupos se apresentem.
    Como boa pernambucana, gosto baião, música serteneja,
    do forro pé de serra, etc.
    Não aguento vulgaridade.
    Posso estar sendo preconceituosa, mas acho que quem
    compra esse tipo de música são pessoas incultas e
    que se identificam com o contexto,
    Obrigada,
    Cristina

  3. José Fernando Souza:

    Célia,

    Não tome as palavras - e a ação do sr. Ariano Suassuna - como absolutas. Relativize-as o quanto for possível.

    Se ele quisesse mesmo se opor à nefanda espetacularização da cultura popular, teria, no mínimo, se posicionado como autoridade pública. Não fez.

    Não consta que ele, na condição de atual Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco tenha estacado ou mandado estacar, como podia e devia, o manancial de dinheiro que se dispendeu para a montagem de imensos palcos para shows dessas bandas que ele diz abominar, pelas cidades em que o Governo é situação, liberando, assim, a vertente da putaria e da licenciosidade do São João.

    E se não dispunha de autoridade, pelo menos que se engrandecesse renunciando e não apenas posando como uma virgem vestal lamurienta.

    É penoso nos dois sentidos, tanto no do aviltamento da cultura popular, quanto no desperdício de crença num intelectual de alto nível que se deixa parecer picaresco quando da assunção de uma postura que não passa de retórica.

    Ah, falta-nos um Ascenso Ferreira, para bradar: “Pega o pirão, esmorecido!”

  4. Maria Esther Torinho:

    Moça, concordo plenamente com você e com o grande Suassuna. E vou além: o que os move (desculpe, não posso dizer “nos”, pois estaria incluindo a mim mesma em algo com o que não compactuo) não é o princípio do prazer, ao menos não no sentido freudiano, mas o princípio do desrespeito, da sacanagem, do ganho fácil, do apelo baixo.
    Abraço
    Maria Esther

  5. Carlos Jael Soares:

    Tenho outras duas observações:

    As músicas acabam com o ser que há nas mulheres; transformam-nas em objetos e, as que são fãs desses “forrós”, adoram isso. É cada uma!

    Outra, o Governo Federal deveria propôr uma taxa indicativa de idade em cd’s e shows dessas bandas/ desses cantores. Se filmes pornográficos levam essas indicações, por que não colocá-las nestas negócios?! Pelo menos, transgressão da liberdade de expressão não será, tendo em vista o que essas pessoas fazem.

  6. Erick Correia Aragão:

    Bom, nessa não consigo tomar partido plenamente. Mas vamos as considerações.
    A apologia ao sexo praticada no meio é sem dúvida lamentável. Um reflexo de uma sociedade de essência ateísta que prima pelo culto ao prazer.
    Logo não se pode rejeitar totalmente tudo que o dito “forró estilizado” tem a oferecer. Nem que seja o mínimo, mas algo pode ser aproveitado. As malícias nas músicas sempre existiram. Seja no fricote dos anos 80 ou nas marchinhas de carnaval. São manifestações populares e devem ser tratadas como tal.

  7. Caio Túlio:

    Hahahaha…José Fernando Souza, vc falou e disse. Assino em baixo, é mt facil reclamar da poltrona de casa, Ariano como Secretário de Cultura não moveu uma palha contra o Chupa que é de Uva! Agora se portar de chocado é fácil,como diriam os populares: isso é só pala.

Comentário do Leitor*