Pedro Cardoso da Costa » Colunistas | Colunistas [d6]
Publicado em 16/08/2008 às 8:15 -

Armas exclusivas

Assim como as palavras que entram na moda por algum período no Brasil, como a pasta rosa, painel do Senado, a lista e os “ficha-suja”, também alguns assuntos são recorrentes no noticiário por décadas.

Na maioria dos grandes assaltos no Brasil, sempre aparecem as armas exclusivas das forças Armadas. Nas reportagens das delegacias vêm sempre às notícias de longas capivaras, nomes de gíria atribuído ao tamanho das chamadas passagens pela polícia. Em período de chuva não faltam às mortes por quedas de barreiras, casas arrastadas pelas enxurradas. Isso se ouve e se lê há pelo menos umas três décadas.

Sobre as armas exclusivas usadas nos assaltos, a imprensa falha por não questionar de onde saíram. Antes de aparecerem nas mãos de bandidos, elas desaparecem das mãos de agentes públicos. Sem questionamento dos meios de comunicação passa-se a impressão que elas surgem do nada. Toda arma oficial tem um registro. Ao surgirem nos assaltos, inevitavelmente, teriam que noticiar de onde saíram e as providências e conseqüências do desaparecimento. Fica uma singela indagação aos comandantes de onde e por quê saem tantas armas e não se notícia o desaparecimento antes de aparecerem nas mãos dos bandidos. Passou da hora de criar uma força-tarefa, mesmo já tão desacreditada, para tentar recuperar essas armas.

Assim como as notícias de armas “exclusivas” das Forças Armadas em outras mãos, também são repetidas as enxurradas arrastando casas e as autoridades culpando quem construiu onde não podia. Não mencionam a quem caberia evitar as construções irregulares e a razão da eterna omissão. Já as famosas capivaras, só corrupção deslavada explica, já que todo inquérito policial deve ser arquivado por autoridade judicial. E, salvo poucos crimes que as vítimas podem desistir, a maioria é de ação pública e todos deveriam ser remetidos à Justiça.

Enquanto o Brasil não tiver um jornalismo mais incisivo e aprofundado nos conteúdos das matérias, sem indagação aos responsáveis por que as desgraças se repetem, todo dia o noticiário vai continuar repetindo o abuso sexual de criancinhas; as capivaras continuarão crescendo ao custo da corrupção; bebês vão continuar sendo jogados de toda forma pelas ruas, sem rigorosa punição aos pais; as enxurradas vão continuar carregando vítimas da casas construídas a muito dinheiro corrompido; e por último, as armas, que deveriam ser exclusivas das Forças Armadas, continuarão sendo muito mais exclusivas dos bandidos, sem nenhum responsável pelo sumiço.

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Pedro Cardoso da Costa

Pedro Cardoso da Costa, tem 44 anos e nasceu em Nova Soure, BA. Em 1980, como a maioria dos nordestinos, mudou-se para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Depois de sucessivas tentativas e desistências, por não concordar com a metodologias do ensino, cursou Direito nas Faculdades Metropolitanas Unidas. Inventou curso particular de alfabetização de adultos. Mantém uma biblioteca comunitária em sua cidade natal. É funcionário, concursado, da Justiça Eleitoral há 22 anos, onde exerceu cargo de direção por algum tempo.É crítico contumaz da inércia da sociedade brasileira nas várias questões de cidadania, da morosidade vergonhosa das Justiças brasileiras.

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