Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 26/02/2008 às 14:35 -
Caravaggio: Um Homem Extemporâneo
“A maior parte dos artistas representaram Judite após cometer o ato. Caravaggio, pelo contrário, mostra o momento preciso da degolação: a vÃtima ainda vive, a cabeça está apenas meio separada do corpo. Os olhos ainda não estão baços e exprimem o terror da morte. Da boca muito aberta escapa um grito. Caravaggio procura o efeito teatral que alia o choque ao horror, um gênero de dramaturgia também apreciado pelo seu contemporâneo inglês William Shakespeare.” Com estas palavras, os escritores Rose-Marie e Rainer Hagen, no livro “Os Segredos das Obras-Primas da Pintura [Tomo I], buscaram definir a fascinação de Caravaggio pelo referido ato. A temática da degolação - que também está presente, por exemplo, nos quadros O SacrifÃcio de Isaac (1603) e Degolação de São João Batista (1608) - estava, igualmente inserida na vida cotidiana dos artistas, quer na Inglaterra Isabelina, quer na Roma da Contra-Reforma. Conta-nos, ainda, os autores, que um embaixador veneziano em missão, em Roma, descreveu em 1595 ” não passa praticamente um dia sem que se vejam cabeças [de bandidos mortos] trazidas do exterior ou as dos homens executados no Castel Sant’ Angelo, em grupos de 4,6,10,20 ou mesmo 30 de uma só vez”.
Devido a constante ocorrência de degolações, havia um manual que orientava os artistas a presenciar as execuções, com vistas a captar e estudar o tremor das pálpebras e o revolutear dos olhos durante o ato. Contudo, se as degolações eram uma questão comum para os artistas da época, então por qual motivo Rose-Marie e Hagen dão ênfase a decapitação, especificamente nas obras de Caravaggio?
Possivelmente, foi devido ao realismo que o pintor utilizou para expressar a angústia, o sofrimento, a dor e o desepero inerentes a esta espécie de execução. No mais, Caravaggio sempre recebeu a alcunha de polêmico por todo o realismo que empregava nos personagens que pintava. Em vez de copiar os modelos convencionais, Caravaggio pintava diretamente com modelos vivos e não esquecia as pregas e os sulcos da face, nem as rugas que denunciam o trabalho de toda uma vida. “Está demasiado natural”, foi tudo o que o colega Annibale Carraci foi capaz de dizer ao ver o quadro de Judite.
A fascinação do pintor por degolações reflete fragmentos da sua personalidade. Rose-Marie e Hargen revela-nos um Caravaggio “brigão” e “assassino”. Andava sempre pronto a enfrentar um duelo e por isso estava sempre acompanhado de sua espada. O leitor mais atento poderá ver, inclusive, que punhais, facas e espadas também estão evidentes em quase todos os quadros do pintor. Dados biográficos apontam que depois de cometer um assassinato em 1606, Caravaggio precisou sair de Roma e acabou morrendo solitário e miserável em 1610.
Caravaggio foi um pintor polêmico, controverso, transgressor. Pintou santos de pés sujos e a virgem Maria afogada e inchada como se tivesse sido retirada da água e sofreu perseguições por sua ousadia. Mesmo acossado, fugindo de um lugar a outro, continuou a pintar e acabou se tornando influência decisiva na pintura européia do século XVII.
Observando sua vida e principalmente sua obra, podemos concluir que Caravaggio foi um homem extemporâneo, condição que a maioria dos grandes artistas carrega, sempre em desajuste aos padrões da época em que vivem.
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Jorge Elô
Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da ParaÃba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercÃcio do existir. O resto é somente bônus.http://www.paraibanews.com/author/elojorge
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11/03/08 às 12:55
Caravaggio foi o único dos pintores que se atreveu a pintar não o dia ou as trevas absolutas da noite, mas o momento de transição extato que antecede a aurora, quando os primeiros lampejos de luz começam a atacar a escuridão, mas nem por isso conseguem extingui-la. Um mestre, sem dúvida.