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Publicado em 12/06/2008 às 8:55 -

“Clássicos à Nanquim”- Rembrandt

Por Jorge Elô

Em 1642, o pintor Rembrandt entregou uma obra que pintara sob encomenda. Era a chamada “A Ronda Noturna” (que, hoje se sabe, não era ronda nem noturna.). O cliente a rejeitou, acusando o artista de “não ter pintado seu retrato”, de ter representado “o cenário de uma ópera bufa” e de ter cobrado um preço “muito alto”. Nos debates que se seguiram, o pintor foi enfim acusado de “pintar só o que queria”. Talvez por isso, Rembrandt tornou-se um dos mais importantes nomes da história da arte ocidental. Embora de família humilde, Rembrandt van Rijn, nascido em 1606, em Leiden, recebeu boa instrução. Freqüentou a Universidade, mas em 1620 interrompeu os estudos para dedicar-se à pintura. No ano seguinte, foi aprender as técnicas de Jacob van Swanenburg no ateliê desse pintor. Em 1623, transferiu-se para Amsterdã, tornando-se discípulo de Pieter Lastman. Dois anos depois, pintou seu primeiro quadro conhecido. Voltou para Leiden em 1627, permanecendo quatro anos. Ali, instalou seu primeiro ateliê, iniciando intensa atividade artística. Dessa época datam várias águas-fortes.

Em 1631, estabeleceu-se definitivamente em Amsterdã, obtendo rapidamente grande reconhecimento. No ano seguinte, pintou a famosa “Lição de Anatomia do Dr. Tulp”, que lhe rendeu muitas encomendas de retratos e pinturas sacras. Já famoso, Rembrandt casou em 1634 com Saskia Uylenburgh (com quem teria um filho, Titus). O casal foi morar numa casa confortável no bairro judeu de Amsterdã. O lugar tornou-se centro de reuniões sociais, abrigando um belo acervo de móveis e objetos antigos. Rembrandt passou a ter muitos alunos e muitos clientes ricos. Saskia morreu em 1642. Três anos depois, Hendryckje Stoffels começou a trabalhar como babá de Titus e foi morar com Rembrandt, tornando-se sua companheira. Em 1654, Rembrandt teve com ela uma filha ilegítima, a quem deu o nome Cornelia. O fato causou grande escândalo. Em 1656, após uma série de problemas nos negócios, Rembrandt teve a falência decretada. Dois anos depois, todos os seus bens foram vendidos judicialmente. Num desses leilões, arrematou-se o “Auto-Retrato de Barba Nascente”, hoje no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Em 1660, Titus e Hendryckje abriram uma empresa para comercializar as obras do pintor, evitando o prosseguimento da falência. Em 1663, Rembrandt perdeu a companheira. Mesmo sozinho, continuou executando várias obras, entre elas paisagens e auto-retratos. Pintou também retratos de Titus; num deles (o quadro “São Mateus e o Anjo”, que está no Museu do Louvre), o filho aparece como Mateus. Titus morreu em 1668. Rembrandt pintou ainda um último “Auto-Retrato”, uma composição dramática. Rembrandt van Rijn morreu aos 63 anos, na solidão e na miséria.

Sobre as obras de Rembrandt na Exposição Clássicos à Nanquim

Jacó Abençoa os Filhos de José

rembrandt.jpgA temática sacra é uma constante durante toda a vida produtiva de Rembrandt. O artista apresenta as cenas bíblicas com extrema sensibilidade e profundidade espiritual. “Jacó Abençoa os Filhos de José” (foto), realizado em 1656, têm uma doçura despojada e uma grandiosidade serena incomparáveis na história da arte. As figuras retratadas são comoventes e, mesmo os que não conhecem os detalhes das estórias bíblicas, são tocados pela profunda humanidade das pinturas religiosas do mestre holandês. A esta fase também pertence o quadro “O Filho Pródigo”.
Na releitura desta gravura, a preocupação com as sombras ocupou-me durante todo o processo de criação. Os tons escuros que ocupam as margens do quadro original precisavam ser retratados com cautela, para que o conjunto não ficasse tão sombrio quanto o dos quadros de Caravaggio. Devido a isso, optei por cruzar diversas vezes linhas nas diagonais e na vertical. Desta forma, a gravura permaneceu com toda a serenidade e sensibilidade que acreditei ser necessária.

Boi Esquartejado
Efetuado em 1655, o “Boi Esquartejado” destaca-se pela peculiaridade e originalidade do assunto escolhido. Todo o quadro está construído em função de um grande e pesado animal carneado. A obra foi realizada na fase madura do artista, sendo uma pintura na qual Rembrandt exercitou todo seu conhecimento e habilidade técnica a fim de conferir uma plasticidade singular à obra. O ambiente é sombrio e, mesmo funcionando como um cenário construído para receber o corpo do animal, dá-nos a perfeita idéia de uma peça subterrânea e fria, onde a carne está protegida de elementos externos, insetos e outros animais carnívoros.
Na execução desta gravura, busquei retratar o tom sombrio que sentia ao contemplar a obra. Explorei exatamente a grande quantidade de sombras que impregnava todo o quadro. O nanquim, aliado aos traços nervosos e às vezes desconexos, ajudou-me a compor o tom mórbido do quadro na gravura. O resultado final me surpreendeu. Não fazia a mínima idéia de como ficaria pronto.

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Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

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