Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 04/06/2008 às 19:57 -

“Clássicos à Nanquim”

No mês de junho, a previsão é que seja até este dia 20, estarei realizando uma exposição intitulada “Clássicos à Nanquim”, no Museu de Artes Assis Chateaubriand, situado no largo do Açude Novo, em Campina Grande. A exposição será composta por 30 gravuras feitas somente com uma caneta de nanquim 0,5 cm e tem como temática releituras das obras de grandes pintores universais. Entre eles, figuram Da Vinci, Renoir, Rembrandt, Arcimboldo, Monet, Manet, Van Gogh, Salvador Dali e Goya, entre outros.

Ao lado das gravuras, estarão textos sobre o pintor e a obra retratada, para que aqueles que forem a exposição, tenham, além da possibilidade de se sensibilizar com os quadros, acesso a informações sobre a importância daquela obra e de seu criador. Já que, de acordo com Foucault, saber é poder, acredito que a arte também deveria ter essa preocupação de disponibilizar saber a um maior número de pessoas.

Antecipo aqui na coluna todos os textos da exposição. Além das informações sobre o pintor e a obra, os escritos que seguem contém impressões minhas durante o processo criativo. O primeiro pintor escolhido foi Van Gogh, simplesmente por ser meu artista favorito.

Van Gogh - Um dos maiores gênios da pintura mundial

Van Gogh é considerado um dos principais representantes da pintura mundial. Nasceu na Holanda, no dia 30 de março de 1853. Teve dois irmãos e três irmãs, mas foi com seu irmão Théo que o pintor estabeleceu uma forte relação de amizade. Através das cartas que trocou com com o irmão, os pesquisadores conseguiram resgatar muitos aspectos da vida e do trabalho do pintor. Começou a atuar profissionalmente ainda jovem, por volta dos 15 anos de idade. Trabalhou para um comerciante de arte da cidade de Haia. Com quase vinte anos, foi morar em Londres e depois em Paris, graças ao reconhecimento que teve. Porém, o interesse pelos assuntos religiosos acabou desviando sua atenção e resolveu estudar Teologia, na cidade de Amsterdã. Mesmo sem terminar o curso, passou a atuar como pastor na Bélgica, por apenas seis meses. Impressionado com a vida e o trabalho dos pobres mineiros da cidade, elaborou vários desenhos à lápis. Resolveu retornar para a cidade de Haia, em 1880, e passou a dedicar um tempo maior à pintura.

Após receber uma significativa influência da Escola de Haia, começou a elaborar uma série de trabalhos, utilizando técnicas de jogos de luzes. Neste período, suas telas retratavam a vida cotidiana dos camponeses e os trabalhadores na zona rural da Holanda.

O ano de 1886, foi de extrema importância em sua carreira. Foi morar em Paris, com seu irmão. Conheceu, na nova cidade, importantes pintores da época como, por exemplo, Emile Bernard, Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edgar Degas, representantes do Impressionismo. Recebeu uma grande influência destes mestres, como podemos perceber em várias de suas telas.

Dois anos após ter chegado à França, parte para a cidade de Arles, ao sul do país. Uma região rica em paisagens rurais, com um cenário bucólico. Foi neste contexto que pintou várias obras com girassóis. Em Arles, fez o único quadro que conseguiu vender durante toda sua vida : A Vinha Encarnada. Convidou Gauguin para morar com ele no sul da França. Este foi o único que aceitou sua idéia de fundar um centro artístico naquela região.

No início, a relação entre os dois era tranqüila, porém com o tempo, os desentendimentos foram aumentando e, quando Gauguin retornou para Paris, Vincent entrou em depressão. Em várias ocasiões teve ataques de violência e seu comportamento ficou muito agressivo. Foi neste período que chegou a cortar sua orelha.

Seu estado psicológico chegou a refletir em suas obras. Deixou a técnica do pontilhado e passou a pintar com rápidas e pequenas pinceladas. No ano de 1889, sua doença ficou mais grave e teve que ser internado numa clínica psiquiátrica. Nesta clínica, dentro de um mosteiro, havia um belo jardim que passou a ser sua fonte de inspiração. As pinceladas foram deixadas de lado e as curvas em espiral começaram a aparecer em suas telas

No mês de maio, deixou a clínica e voltou a morar em Paris, próximo de seu irmão e do doutor Paul Gachet, que iria lhe tratar. Este doutor foi mostrado num de seus trabalhos: Retrato do Doutor Gachet. Porém a situação depressiva não regrediu. No dia 27 de julho de 1890, atirou em seu próprio peito. Foi levado para um hospital, mas não resistiu, morrendo três dias depois.

Sobre as obras de Van Gogh na Exposição Clássicos a Nanquim

Terraço do Café em Arles à Noite

Foi pintado pelo artista em1888 (foto). Nele, Van Gogh explorou novas formas de retratar o mundo. No verão de Arles, o pintor decidiu fazer uma experiência pouco comum na época, a de pintar ao ar livre e no período da noite. Seu objetivo era capturar a atmosfera da cidade, retratar seus matizes e detalhes. O café, sob o céu estrelado, aparece extremamente iluminado. As personagens da pintura são descritas não pela sua aparência exterior, mas pelos contrastes complementares que habitam seu universo interior, subjetivo.

Foi o primeiro quadro do pintor em que trabalhei. Houve uma dificuldade inicial, pois realizei anteriormente obras de outros pintores, a exemplo de Salvador Dali, onde a técnica do nanquim parece ser mais fácil de ser aplicada. Quando me deparei com as cores luminosas e o jogo de luz delineado pelas pinceladas fortes, tive a sensação que seria um desafio. Na manhã em que me preparava, decidi assistir ao filme “Van Gogh, Vida e Obra de um gênio” (direção de Robert Altman; 1990), e após estar inebriado pela atmosfera de Van Gogh, percebi que o segredo seria deixar a mão flexível, abandonando os pequenos traços que havia utilizado em outras gravuras que havia feito. O resultado me deixou satisfeito.

O Quarto em Arles

A obra foi concluída em 1887. O artista pintou o tema em três versões. Nesta fase, Van Gogh escreveu a seu irmão, Théo Van Gogh: ‘a contemplação do quadro deve repousar a cabeça, ou melhor, a imaginação.’ Todas as sombras são eliminadas e as cores puras são modeladas através da aplicação da tinta espessa. A perspectiva conduz o olhar para dentro da quarto e a janela, entreaberta, atrai a curiosidade do observador.

As cores utilizadas no quadro são suaves, exceto o vermelho intenso do lençol. Decidi deixar a suavidade do quadro, dando pouca ênfase ao uso de sombras.

Feixes de Trigo no Campo

O quadro data de 1885. Por esta época o pintor passeava a esmo pelos campos de Arles e retratava paisagens variadas ao ar livre. O trigo, neste período em particular, figura como uma temática recorrente na obra de Van Gogh, tendo sido retratado em diversos outros trabalhos, sempre com um matiz dourado, porém esmaecido.

jorgeelovangogh.bmpQuando fiz a gravura deste quadro, ainda estava sob a influência do filme e da gravura do quadro “Terraço do Café em Arles à Noite”, elaborado durante toda a manhã e a tarde. Da mesma forma que a gravura anterior, a leveza e a liberdade da mão e do traço conduziram o trabalho.

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Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

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