Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 12/02/2008 às 8:56 -

Da historicidade da arte

Embora a arte assuma um caráter de universalidade, podendo sensibilizar leitores de culturas diversas, seja do Japão, da Turquia, da Malásia ou do Brasil, é preciso ressaltar que nela há uma historicidade intrínseca. Assim, a obra de arte é resultado de um determinado contexto histórico. Ferreira Gullar, por exemplo, em seu poema “Maio de 64″, expressa sua condição de estranhamento e recusa à realidade ao qual estava incluso, delimitando exatamente o que lhe sufocava naquela circunstância. Certamente não era a vida que lhe pesava, pois esta é para o poeta, ao contrário, prazerosa e apaixonante. O poeta demonstra amar “a vida/ que é cheia de crianças, de flores/ e mulheres, a vida,/ esse direito de estar no mundo,/ ter dois pés e mãos, uma cara/ e a fome de tudo, a esperança.”

Em seguida, a narrativa poética de Gullar aponta o que está provocando de fato sua insatisfação, ao afirmar “esse direito de todos/ que nenhum ato/ institucional ou constitucional/ pode cassar ou legar”. Nesse sentido, deixa-nos claro que a responsável por todo este mal-estar era a ditadura militar de 1964.

No percorrer do poema, Gullar revela os crimes e abusos cometidos nesta época. O poeta mostra-nos a maneira como o regime militar teria encurtado a distância entre o público e o privado, interferindo assim, diretamente na vida privada da sociedade, e neste caso, na vida dele próprio: “Mas quantos amigos presos!/ quantos em cárceres escuros/ onde a tarde fede a urina e terror.” O poeta continua denunciando a miséria inerente à maioria da população, atacando a falta de interesse do governo no que se refere a este segmento da sociedade, usurpado e explorado: “/Há muitas famílias sem rumo esta tarde/ nos subúrbios de ferro e gás/ onde brinca irremida a infância da classe operária”.

Gullar termina seu poema definindo sua condição de ator político, quando limita primeiramente sua participação no curso da história, afirmando sua finitude, que se torna paradoxalmente condição inflexível, imutável, e portanto, agente transformador: “Estou aqui. O espelho/ Não guardará a marca deste rosto,/ se simplesmente saio do lugar/ou se morro/se me matam./Estou aqui e não estarei, um dia,/ em parte alguma./ Que importa pois?”. Desta forma, sua insatisfação com àquela realidade leva-o a buscar uma transformação imediata, através da força, pois a condição de estar vivo ou morrer lutando está equiparada uma a outra: “A luta comum me acende o sangue/ e me bate o peito/ como o coice de uma lembrança.”

O fazer poético de Ferreira Gullar é fruto de sua existência, mas não se limita somente a ela. A despeito de haver sido escrito no contexto da ditadura militar, este poema de Gullar atinge-nos com a força desestabilizadora de pilares, fazendo-nos cúmplices da insatisfação com a realidade circundante, embora na contemporaneidade a ditadura não seja assim tão declarada.

delicious LinKa-me linkk eucurti domelhor rec6

As opiniões expressas ou insinuadas nas colunas deste portal pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do ParaibaNews.com ficando o portal livre de qualquer responsabilidade sobre qualquer consequência.

Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

http://www.paraibanews.com/author/elojorge
jornalimprensa@gmail.com

» mais artigos do colunista

Comentário do Leitor*