Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 08/02/2008 às 14:27 -

Das várias facetas da arte

A arte dificilmente pode ser enquadrada em um conceito único por ser tratar de algo complexo e multifacetado. Entretanto, entendemos que algumas propriedades da arte podem ser analisadas de forma generalizada, abrangente. A priori, poderíamos definir a arte como fruto de uma existência inserida num contexto histórico, social e cultural. Não é possível pensar a arte esquecendo da sua capacidade de reproduzir-se ou contrapor-se aos discursos dominantes da época em que foi produzida.

Um historiador italiano, chamado Carlo Ginzburg, provou-nos que até na arte mais abstrata - presente, por exemplo, no quadro Demoiselles d’Avignon de Picasso - há uma ligação cognitiva com a realidade ao qual foi criada. Segundo o autor, tanto a ligação do pintor com a caricatura em seu período juvenil, quanto, principalmente o contato com máscaras africanas, teriam permitido a Picasso visualizar a dimensão mágica da imagem representada em Demoiselles d’Avignon. E disse ainda: “Foi a própria dimensão mágica que sensibilizou Picasso no momento em que se encontrou diante das máscaras africanas do museu do Trocadéro: um encontro decisivo que reforçou algo que ele já sabia”.

Na modernidade, a arte [e o artista] não consegue enxergar as contradições da realidade com um olhar satisfeito, mas ao contrário, lança resistência a esse ritmo frenético da vida moderna. Para Bosi, foi a partir de Leopardi, de Holderlin, de Poe e Baudelaire que foi aguçada essa consciência da contradição. E, realmente, a arte está situada exatamente na contramão da vida moderna. Há muito que a arte não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade. Para subsistir, a arte e o artista parecem seguir o caminho inverso das multidões do século XXI.

Mesmo quando se opõe, a arte é fruto do dia-a-dia. O poeta Ferreira Gullar mostra-nos exatamente isso. Ao lançar seu olhar sensível ao cotidiano utilizando-se do estranhamento, o poeta compôs lindos poemas [e também crônicas] compreensíveis a qualquer ser que, no mínimo, saiba ler. Logo, a arte não necessita ser elitista para ter valor, pensamento em voga há muito tempo e que possui alguns adeptos. A arte não está reclusa a um pequeno grupo que conhece a cultura grega, ou bíblica, ou mesmo russa, nórdica ou o quer que seja. Em suma: a arte não é prioridade daqueles que julgam ser intelectuais. Este é um dos argumentos dos que tentam explicar porque os pintores impressionistas fascinaram [e continuam a fascinar] a todos, desde a dona de casa que possui uma réplica de Van Gogh em casa, até um banqueiro que mantém um original pendurado em sua residência. A arte impressionista buscou retratar o cotidiano da pequena burguesia, ilustrando seus festejos, e principalmente, a beleza natural dos locais que freqüentavam. As emoções e os sentimentos estão vivos em seus quadros, acessíveis a qualquer um que também viva. O requisito básico para admirar uma obra impressionista e neo-impressionista é somente existir, e isso, todos nós fazemos.

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Jorge Elô

Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.

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( 1 ) » “Das várias facetas da arte”

  1. Joaquim:

    Excelente insight conciso sobre a idéia de arte. Gostei muito de citar as considerações de Carlo GInzburg que estão no livro Relações de força: história, retórica, prova publicado em 2002 pela Companhia das Letras. No mais, o próprio Ginzburg utiliza muito bem as possibilidades que a arte oferece para compreensão da cultura de um tempo, sobretudo a literatura. Estarei sempre dando uma olhada nesse espaço, que ao meu ver irá render boas discussões.

Comentário do Leitor*