Jorge Rezende » Colunistas
Publicado em 20/12/2007 às 12:32 -

Desculpas amarelas

Nunca na história deste país – expressão que anda em moda nos últimos anos – se viveu tanto a política da desculpa amarela como nos dias de hoje. É desculpa para tudo e para todos. Desculpinhas e ‘desculponas’. Mas quase sempre amarelas. Tanto na vida privada quanto nos meios públicos e, é claro, em meio aos poderes constituídos. Amarela é a cor da moda. É a cor da desculpa.

São desculpas amarelas que não convencem ninguém, com floreios, enganos e até mesmo mentiras. Tem desculpa para tudo: para não fazer regime ou parar de fumar; para não ir ao médico; para não consertar o carro, para não parar, sentar e ouvir o filho ou o reclamo da mulher ou marido; para não estudar para a prova; para não pagar o colégio dos meninos ou não assinar a carteira de trabalho da empregada, que o sujeito insiste em florear chamando-a de ’secretária’.

Desculpa para não ir à igreja; para não ler a Bíblia ou livro nenhum e até mesmo a bula do remédio; desculpa para não rezar, jejuar e, de forma às avessas, fazer greve de fome contra a sede de 12 milhões de nordestinos à espera da transposição das águas do Rio São Francisco. O negócio é procrastinar sempre. Palavra de origem latina que é o mesmo que deixar pra depois, transferir para outro dia, adiar, delongar, demorar, espaçar.

Enfim, é pedir desculpas amarelas sempre. Seja qual for ela e doa a quem tiver que aceitá-las. Desculpas para não aprovar um projeto; desculpas para não trabalhar; desculpas amarelas para não votar na CPMF, como fizeram o tucano Cícero Lucena e o democrata Efraim Morais. Aliás, depois de Fernando Collor (PTB-AL), o segundo senador mais ausente este ano de 2007 nas sessões do Senado Federal é o senador paraibano Efraim Morais (DEM).

Ele e outros três senadores, além de Collor, tiveram percentuais de ausência acima de 33,33%. Em tese, todos eles estão sujeitos ao disposto no inciso III do artigo 55 da Constituição Federal, que prevê a perda de mandato de todo deputado ou senador “que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer”. É claro que isso não vai ocorrer e vai se ter uma boa desculpa amarela para isso.

Por fim, quase no crepúsculo do ano de 2007, mais um episódio de desculpas: o famoso caso dos envelopes amarelos foi arquivado pelo juiz Edvaldo Albuquerque de Lima, da 61ª Zona Eleitoral, em Bayeux. Na sentença, o juiz disse que não há provas que caracterizem crime eleitoral, por isso determinou o arquivamento de inquérito policial instaurado para apurar crime eleitoral na prisão de dois funcionários públicos em 2006 portando dinheiro de campanha da Coligação Por Amor da Paraíba, que elegeu o governador Cássio Cunha Lima (PSDB). Todavia, o processo na Justiça Eleitoral continua.

Deixa-se aqui nossas desculpas amarelas e que 2008 seja um ano mais iluminado, de todas as cores e muito, muito, mas muito mesmo menos monocromática.

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Jorge Rezende

O jornalista Jorge Rezende, 42 anos, é natural da cidade de Três Corações, Minas Gerais, e atua na imprensa paraibana há 19 anos. Com passagem pelas principais empresas de comunicação do estado: jornais O Combate, Correio da Paraíba, O Norte, A União e Jornal da Paraíba; site de notícias Paraibaonline; e revista A Semana.

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