Alexandre Garcia » Colunistas | Colunistas [d1]
Publicado em 23/06/2008 às 7:27 -
Dez dedos hábeis
Você teve aula de logaritmo? De latim? Pois fui mau aluno de Latim e cheguei a dar aula de logaritmo. Hoje, para isso, apelo à calculadora ou ao google. Houve tempo em que a gente tinha que aprender muito para sobreviver. Hoje parece tudo mais fácil. E parece que nosso cérebro, menos estimulado, fica mais sujeito ao Mal de Alzeimer, depois de certa idade. Os pesquisadores dizem que as doenças que atingem o cérebro aparecem por falta de exercícios dos nossos neurônios e suas comunicações, as sinapses. Por isso, na hora de uma soma, tenha duas ou vinte parcelas, faço como o meu avô: só uso o cérebro e deixo a calculadora para outras operações. Pensando bem, até desprezo a calculadora. Estou hoje descansando pela Europa, e, ao comprar meus euros a 2,7 reais, inventei uma fórmula prática, para saber, em reais, o quanto estou pagando por um bom vinho: multiplico o preço em euros por três e diminuo o resultado de um décimo dele. Perceberam? Nenhum mistério. Basta mandar o cérebro funcionar.
A gente precisava ter alguma habilidade até para encher uma caneta-tinteiro e não fazer lambança. Para trocar uma agulha de long-playing sem estragar a safira. Não era para qualquer um usar a chaveta de abrir lata de conserva e tinha que ter uma boa percepção de física para fazer a regulagem certa do pêndulo de um relógio de parede. E a habilidade para trocar o filme de celulóide na câmera fotográfica, antes que a oportunidade da foto passasse. A propósito, quantos cálculos de ótica para acertar a velocidade do obliturador, mantendo o foco certo com a abertura da lente? Pois isso tudo hoje é feito por algum chip, que substituiu nosso quase obsoleto cérebro. (E vejam só que o idiota do meu computador nunca ouviu falar em obliturador e o está sublinhando como se fosse um erro…)
Pois havia um tempo que tínhamos que aprender a língua falada no país, para não passarmos o vexame de cometer erro. Hoje há um corretor em nossos computadores. No tempo da máquina de escrever, era preciso ter jeito para deixar o carbono bem alinhado e sem rugas, pois estragaria as cópias. E ter habilidade suficiente para evitar erros, porque, para apagar uma letra errada, precisaria de borracha em todas as cópias. Até que apareceu o “moderno” líquido corretor, lembram? Por falar em lembranças do passado, vocês recordam do tempo em que os automóveis tinham embreagem e câmbio manual? Pois isso foi antes de 1952. Menos no Brasil….
Vocês lembram de quando as pessoas sentavam em cadeiras nas calçadas, nas noites de verão, para conversar, sem que a televisão as isolasse? Havia uma habilidade especial nos corações e nos cérebros, para enriquecer a convivência e tornar nosso sono mais reparador. Tudo isso foi ultrapassado pelo progresso, a tecnologia, a eletrônica. Só não conseguiram, ainda, algo mais prático que a velha e boa dactilografia, hoje chamada de digitação. Datilografia significava escrever com os dez dedos, sem olhar para o teclado, na mesma rapidez do pensamento. Digitação significa perder tempo procurando as teclas com os dedos fura-bolo. Uma furada da modernidade.
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Alexandre Garcia
O jornalista Alexandre Garcia começou no rádio aos sete anos, fazendo papéis infantis em radionovelas. É formado em primeiro lugar nos três anos do curso técnico de Contabilidade e no vestibular em todo o curso, na PUC/RS, onde depois lecionou. Foi correspondente no exterior pelo Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses. Foi diretor da TV Manchete e diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo Repórter e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas revistas mensais e mantém coluna semanal em 15 jornais. Tem comentários diários em 170 emissoras de rádio. Faz palestras pelo Brasil. Cobriu três guerras(Angola, Líbano e Malvinas) e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império Britânico. Foi enviado especial no Peru, Paraguai, Colômbia e Chile. E correspondente especial na Argentina e Uruguai. Agraciado com 15 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília, como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o Poder Legislativo outorgou-lhe o título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da Notícia, que vendeu mais de 60 mil exemplares e está na 11ª edição.http://www.paraibanews.com/author/alex
mercury@terra.com.br
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24/06/08 às 11:00
Belissimo e pertinente o texto do Alexandre Garcia, à altura do autor. Me preocupa muito essa juventude, emessiana, orkuteira e googleira que não precisa mais raciocinar pois tem “todas as repostas” com apenas um Click.