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Publicado em 16/06/2008 às 8:02 -

Exorcizando Palavras

Há poucos dias, num informe publicitário da Veja, apareceu o cúmulo dessa surrada, insignificante e inútil palavra: conscientização. Para fazer propaganda de um iogurte para intestino preso, a Danone pôs um título: “O Primeiro Passo é a Conscientização”. Essa é boa! Conscientização é bom também para livrar a prisão de ventre. Já servia para acabar com as mortes no trânsito, para os eleitores votarem bem, para as pessoas cuidarem dos dentes, do colesterol, da obesidade; para os pais evitarem que os filhos se tornem usuários(de drogas, é claro). Uma chatice! Façam-me o favor de nunca usar esse palavrão se falarem comigo. Eliminem, simplesmente conscientização e o verbo conscientizar e não sentirão falta deles.

No caso da prisão de ventre, certamente a Danone quis dizer que “O Primeiro Passo é Reconhecer” – mas não resistiu ao chavão. A Polícia Rodoviária, os pais, os professores, os médicos, certamente gostariam de convencer as pessoas que andam fora da linha, mas não resistem ao chavão. Que, a rigor, está errado. Quem quer que tenha estudado um pouquinho de psicologia sabe que um convencimento só funciona quando vai para o inconsciente. Se ficar no consciente, está muito na superfície para ser incorporado como hábito. Então, a rigor, quem quisesse usar o chavão, teria que falar em inconscientização.

São palavras ao vento. Nada significam. São apenas chavões, modismos, chatices. Vejam outras. Qual a diferença entre “A sociedade como um todo” e “A sociedade”? Nenhuma. Então, por favor, joguem essa besteira de como um todo no lixo. “O Brasil como um todo” seria maior que o Brasil? Quanta bobagem! Outro modismo é o voltado. “Uma aula voltada para as crianças” significa de costas para as crianças, de lado? De frente é que não é, essa baboseira. Basta jogar o voltado no lixo, que não vai fazer falta. E a besteira do junto? “É preciso apresentar os documentos junto à Receita Federal” significa que vai apresentar no vizinho, e não na Receita. Lixo para o junto!

E a supina subjetividade de envolvimento? Quem testemunhou um assalto, está envolvido no assalto? “O carro envolveu-se numa colisão” – significa que estava passando por uma colisão e, por acaso, viu-se envolvido nela. E o que quer significar “ele mora num verdadeiro castelo”? Significa que ele não mora num castelo. “O carro dele é uma verdadeira jóia” significa que não é uma jóia. Mentimos, ao usar o “verdadeiro”. Lixo com ele. E, na falta de vocabulário, ou de memória, vamos enfiando na frase palavras que nada significam. Basicamente é uma delas. Pode ir para o lixo. E se alguém lhe disser que vai agregar valor, interrompa-o e pergunte o que quer dizer com isso. Seu interlocutor vai se enrolar e descobrir que não queria dizer coisa alguma. Só fingir que entendia de alguma coisa que não sabe o que é…

Deixei para o fim a maior chatice de todas, entre essas baboseiras que poluem nossos olhos e ouvidos: “disponibilizar”. “Disponibilizei canetas para todos em cima da mesa” é um horror, quando era só dizer “têm caneta pra todo mundo aqui na mesa”. E, se tiver mesmo que oferecer alguma coisa, ofereça, não disponibilize. Disponibilizar não merece apenas o lixo, já que é totalmente dispensável, mas como é um monstro, precisa de uma condenação por exorcismo.

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Alexandre Garcia

O jornalista Alexandre Garcia começou no rádio aos sete anos, fazendo papéis infantis em radionovelas. É formado em primeiro lugar nos três anos do curso técnico de Contabilidade e no vestibular em todo o curso, na PUC/RS, onde depois lecionou. Foi correspondente no exterior pelo Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses. Foi diretor da TV Manchete e diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo Repórter e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas revistas mensais e mantém coluna semanal em 15 jornais. Tem comentários diários em 170 emissoras de rádio. Faz palestras pelo Brasil. Cobriu três guerras(Angola, Líbano e Malvinas) e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império Britânico. Foi enviado especial no Peru, Paraguai, Colômbia e Chile. E correspondente especial na Argentina e Uruguai. Agraciado com 15 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília, como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o Poder Legislativo outorgou-lhe o título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da Notícia, que vendeu mais de 60 mil exemplares e está na 11ª edição.

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