Jorge Rezende » Colunistas
Publicado em 14/03/2008 às 17:58 -

Jornalismo cara-de-pau e a proliferação das “fontes”

Dezenas de assuntos que têm ocupado espaços generosos em grande parte dos veículos de comunicação no estado nos últimos tempos nos levam à infeliz constatação: estamos brincando de fazer jornalismo na Paraíba. É impressionante a quantidade de informações incompletas, sem fonte definida e, é claro, mal-intencionadas para beneficiar algum grupo político. Os leitores de jornais, revistas e sites; os ouvintes de rádios; e os incautos telespectadores televisivos ficam “boiando” frente a tanta desinformação.

As “notícias” plantadas são travestidas de pura verdade e oficialidade. Todavia, na grande maioria das vezes, não passam de boatos, especulações e sem nenhum cunho jornalístico. Colocadas à disposição de todos apenas com o intuito de favorecer a um ou a outro grupo político.

Para dar um ar de verdade a essas “notícias” criadas, quase sempre se usa termos como “segundo uma fonte próxima a…” ou “de acordo com um informante que não pode se identificar” ou “fonte ligada ao…” ou simplesmente já vem o “desmentido” ou a “acusação” de alguma autoridade antes mesmo de aparecer o fato original. É impressionante a cara-de-pau desses atores e dos coleguinhas jornalistas que se prestam a isso!

É claro que, em casos especiais, o jornalista tem o direito (e até o dever) de preservar a fonte. Mas repito: em casos especiais. Mas não é o caso da corriqueira boataria e das falsas notícias que têm proliferado na imprensa paraibana. Isso nos faz lembrar o professor Carmélio Reynaldo no Curso de Comunicação Social da UFPB, que cobrava dos seus alunos-aprendizes-de-feiticeiro a clareza e a verdade nas informações. Indignado, Carmélio – uma referência na nossa formação de jornalista – sempre esbravejava em forma de ensinamento ao se deparar com um “segundo uma fonte do Palácio…”: “Que fonte é essa, meu filho? Fonte que eu conheço ou é de luz ou de água. Quem deu essa informação?”.

Bom, só para exemplificar esse tipo “jornalismo plantado” em terras paraibanas, vamos para dois fatos recentes. Um envolvendo o senador José Maranhão (PMDB) e a mobilização na cidade de Monteiro em favor da transposição das águas do rio São Francisco. E o outro acerca do afastamento do coronel Lima Irmão e a ascensão do coronel Kélson no governo Cássio Cunha Lima (PSDB).

Na sexta-feira, dia 14, um dia após o ato ecumênico na cidade de Monteiro, “rolou” pelas redações da imprensa paraibana uma declaração do governador Cássio dizendo que “acreditava ser possível que o senador José Maranhão procurou ‘boicotar’ o evento pró-transposição em Monteiro ao ligar para o ministro Geddel Vieira Lima, da Integração, para evitar sua visita à Paraíba”. E dizia o governador em solenidade no Palácio da Redenção: “Acredito, porque não é a primeira vez que ele fez isso”.

Bom, o negócio é o seguinte: onde foi, quando e quem afirmou que o senador peemedebista tentou boicotar o evento? Foi o próprio senador que disse? Ninguém registrou isso. Só um portal de notícias de João Pessoa, ligado ao grupo que faz oposição a Maranhão, tascou: “Ontem, fontes (olha aí a danada da ‘fonte’) ligadas ao ministro garantiram que o contato, via telefone, teria ocorrido para tentar ‘melar’ a presença de Geddel no evento”.

E é claro que, jornalisticamente e de forma inteligente, o senador Maranhão nem se deu ao trabalho de responder às “notícias” de que teria tentado impedir a presença do ministro da Integração Nacional no ato público em Monteiro.

O outro exemplo vem da solenidade da então posse do novo comandante da PM da Paraíba, Kélson Chaves, ocorrida há alguns dias, quando o ex-comandante Lima Irmão danou-se a destilar as mágoas durante muito mais tempo que o estipulado pelo cerimonial, insinuando que o trabalho todo que foi feito por ele seria aproveitado pelo sucessor. E como registrou a formidável radialista e jornalista Cláudia Carvalho em seu blog ‘Parem as Máquinas’, “quando chegou a hora de agradecer, Lima Irmão teve espaço para toda a família Cunha Lima, menos para Cássio, o governador.

O governador ofendido mandou desligar o som para acabar com o discurso “desaforado” e determinou uma nova exoneração de Lima Irmão, que anteriormente havia sido designado para a chefia da Casa Militar.

Bom, como também ressaltou o competente jornalista Wellington Farias: “Não se faz mais jornalistas como antigamente”. Pois a história que envolveu o governador e o ex-comandante da PM ocupou toda a imprensa, porém, todos falaram dos ’santos’, mas ninguém contou o ‘milagre’. Ou seja: na cerimônia havia dezenas de coleguinhas jornalistas e ninguém, mas ninguém mesmo, gravou o discurso que contrariou o governador? É uma pena. Estamos brincando de fazer jornalismo. Estamos fazendo jornalismo pela metade.

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Jorge Rezende

O jornalista Jorge Rezende, 42 anos, é natural da cidade de Três Corações, Minas Gerais, e atua na imprensa paraibana há 19 anos. Com passagem pelas principais empresas de comunicação do estado: jornais O Combate, Correio da Paraíba, O Norte, A União e Jornal da Paraíba; site de notícias Paraibaonline; e revista A Semana.

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( 1 ) » “Jornalismo cara-de-pau e a proliferação das “fontes””

  1. Carmélio Reynaldo:

    Jorge,
    obrigado pela referência e por levar a sério o Jornalismo.
    Quanto à nota sobre a ausência do senador no ato em Monteiro, também desconfiei do tal anonimato.

    e-braço,
    Carmélio

Comentário do Leitor*