Célia Leal » Colunistas
Publicado em 27/04/2008 às 16:55 -
O Violão canhestro calou.
Canhoto, o gênio paraibano que conquistou os mestres da MPB
Impossibilitado de tocar desde abril de 1998, vítima de isquemia cerebral, o violonista e compositor Francisco Soares de Araújo, o nosso Canhoto da Paraíba, deixa fãs, amigos, familiares e a música brasileira órfã. Ele morreu nesta última semana em sua casa, no bairro de Maranguape I, Paulista-Pe, onde vivia com a família. Canhoto era um homem alegre e conversador. Aprendeu a tocar violão com a mão esquerda e essa desenvoltura com o instrumento o tornou um gênio e um dos músicos mais admirados no Brasil.
Em dezembro de 2001, entrevistei por telefone Eunice Gadelha, sua esposa, que nos falou que o primeiro derrame ocorreu num momento de alegria quando Canhoto, aos 75 anos, gravava uma fita cassete em casa. Ela contou que a pressão dele subiu repentinamente e ele teve o primeiro derrame. Era três de abril de 1998. De lá pra cá, se passaram 10 anos e Canhoto em convalescença foi acometido também por uma profunda tristeza.
Segundo Eunice, a falta de contato com o violão, a falta de carinho daqueles que faziam parte do seu meio musical, do próprio trabalho, tudo isso só dificultou a sua recuperação e o fez mergulhar numa profunda tristeza. Apesar da queixa vale ressaltar alguns fiéis amigos de Canhoto que sempre se mantiveram atentos, presentes e solidários. Paulinho da Viola e Toquinho são alguns dos que, constantemente ligavam para obter notícias deste gênio paraibano que conquistou os mestres da Música Popular Brasileira-MPB.
Vários outros artistas como Geraldo Azevedo, Elba Ramalho,Vital Farias, Turíbio Santos, Rafael Rabelo (em memória) e amigos, jornalistas, participaram de shows de solidariedade à Canhoto da Paraíba com o objetivo de angariar fundos para suprir gastos que a família vinha tendo com o tratamento de saúde do mestre. Um novo show estava programado para 19 de abril último mas, não chegou a ser realizado. A família pede que o show aconteça, apesar da morte física de Canhoto.
Quem era Canhoto da Paraíba – Francisco Soares de Araújo, também carinhosamente conhecido por ‘Chico de Princesa’, referência a cidade natal, Princesa Isabel, no interior da Paraíba, era pai de quatro filhos, dois do primeiro casamento e dois do segundo. Declarou numa ocasião que a sua esperança musical estava num neto que se interessava por violão. Apesar de ter gravado apenas cinco discos, Canhoto tem uma história musical que deixa saudades.
Aos 17 anos, em 1946, foi convidado para tocar na Rádio Clube de Pernambuco, onde estreou ao lado de Sivuca e Emanoel Silva. De 1952 a 1958 foi violonista da Rádio Tabajara, na Capital Paraibana, no programa Hora da Saudade, onde teve a oportunidade de mostrar seu talento, tocando com os grandes músicos de época.Teve algumas canções gravadas por nomes famosos como Paulinho da Viola, Delrian e Toquinho.Gravou quatro discos – independentes- e um deles teve a direção de Paulinho da Viola.
Canhoto era considerado pelos grandes vultos da musica nacional, dentre eles Paulinho da Viola, Rafael Rabelo, Vinicius de Morais, Badem Pawell e tantos outros, como um dos maiores violonistas existentes na escola musical criada por Dilermando Reis. Quando estava em atividade foi bem conhecido na área musical, principalmente no sul do País, no entanto, a Paraíba não o conhecia. Por essa razão, tentando resgatar o seu maior violonista, a Fundação Banco do Brasil, na Paraíba, à época, patrocinou 50 apresentações dele e seu grupo, formado por Walter Albuquerque (acordeon) e Francilúzio (sete cordas), por todo o Estado.
Só pra dá uma idéia da importância de gênio paraibano para a musica brasileira, o produtor Hermínio Bello citou em entrevista que Canhoto da Paraíba integrava o clã onde pontificam Baden Powell, Turíbio Santos e Sebastião Tapajós. Disse o produtor que um dia Radamés Gnatalli, ao ouvir Canhoto tocar na casa de Jacob do Bandolim, ficou tão impressionado com a performance do músico paraibano que berrou: “Esse cara é um doido”. E ele foi único na sua genialidade.
Em 1994, Canhoto participou do projeto Cumplicidades, realizado em intercâmbio Brasil e Portugal. O talento dele, acrescido de seu comportamento simples, fez com que a nossa Paraíba, em qualquer lugar do mundo, fosse representada por um filho de grande valor tanto como artista quanto como homem. O autor de “Único Amor”, “Com mais de Mil”, “Canhoto da Paraíba-violão tocado pelo avesso” e “Pisando em Brasa” é também Patrimônio Vivo de Pernambuco, título que recebeu em 2005, na cidade de Recife.
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Célia Leal
Célia Leal - Jornalista e Relações Publicas, graduada pela UFPB. Como repórter durante 15 anos, foi premiada algumas vezes. Já tendo atuado com destaque nos jornais A União, Correio da Paraíba e O Norte, além ter assessorado vários sindicatos, políticos e ONG,s. Também foi produtora e editora da Revista Mosaico, redatora do Portal Correio e do telejornal Cidade Revista.http://paraibanews.com/author/celia
jornalista.celialeal@hotmail.com
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27/04/08 às 6:46
Prezada Célia, os dados sobre Canhoto da Paraíba têm variado com imprecisão em toda a imprensa. A começar pela idade. Declarações de sua filha Vitória indicam 19.03.1926. Portanto, o nosso gênio faleceu aos 82 anos, e não 81, 80, como tem sido noticiado. (Ele possui até o choro “19 de março”, em que homenageou o seu dia. ) O Patrimônio Vivo de Pernambuco, anunciado em dezembro de 2005, somente pôde usufruir em 2006. Mais: ele deixou 4 filhas. Em meu blog http://urarianoms.blog.uol.com.br/ postei o texto “Oração por Chico Soares, Canhoto da Paraíba”, que, lido por Ana Maria Braga, acabou por gerar pensões na Paraíba e em Pernambuco para um dos maiores gênios do violão brasileiro. Abraço.
28/04/08 às 8:25
Canhoto do Universo, quantas vezes ouvimos o som desse violão, timbre único e uma forma muito própria de executar seu instrumento, deixa uma história dentre os mestres do violão brasileiro. Da Paraíba para o mundo e agora Academia dos Imortais. Viva a bela musica que sai da Paraíba para o mundo.
Rosildo Oliveira
28/04/08 às 4:03
Cara amiga Celinha,
Parabéns pela maatéria sobre Canhoto, justa homenagem a um paraibano notável.
Kleber
30/04/08 às 3:39
Ainda bem que existe jornalistas como você, pois é só assim que a memória de um gênio como o Canhoto da Paraíba ficará para sempre na história da música brasileira.
Valeu pelo texto.