Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 16/02/2008 às 8:45 -
Onde fica o “eu-lírico”?
Há quem pense o eu-lírico enquanto um sujeito que sobrevive na obra independente do autor e, em muitos casos, assuma características diferentes do artista que o criou. A justificativa para tal pensamento pode vir de citações das músicas de Chico Buarque, que em várias canções utiliza-se de um “eu-lírico” feminino, ou de Castro Alves, que escreveu um poema tendo como “eu-lírico” a própria África, entre outros exemplos.
Perceber e analisar o “eu-lírico” de forma isolada, tendo como premissa somente a obra, torna a compreensão deste incompleta e limitada. Contemplar o “eu-lírico” deixando de perceber nele fragmentos e impressões do autor que o concebeu torna estreita a sua significação. Podemos citar, nesse sentido, o genial escritor russo Fiódor Dostoiveski.
Buscar compreender o “eu-lírico” em qualquer livro do escritor certamente necessitará a apreensão dele mesmo, do próprio Dostoievski, de seus ideais, caráter e personalidade. Como diz Natália Nunes, na introdução geral das obras completas do autor: “Os heróis de Dostoievski, verdadeiramente, têm apenas uma ambição: medirem suas próprias forças, provarem a si próprios se são livres ou não, saberem o que há nas profundezas mais recônditas da sua alma, tanto de bem como de mal, avaliarem a parte de anjo e a de besta que habita no fundo do seu ser. Este é o seu grande problema, a finalidade que procuram, o objetivo da sua existência”.
Tendo como foco a descrição das personagens de Dostoievski, não poderíamos também questionar se estas não foram as ambições do autor? Será que não foram estes desejos que o levaram a ser exilado da Rússia para a Sibéria? E que dizer da publicação “O Jogador”?
Na narrativa, o autor se confunde com o personagem, posto que o próprio Dostoievski gastava todo o adiantamento pelos seus livros - que ainda não havia sequer começado a escrever - nas roletas de São Petersburgo. É possível encontrar semelhanças entre os personagens e o autor, mesmo quando aparentemente existem traços antagônicos.
Alguns literatos e críticos de arte insistem em dizer que o eu-lírico é a voz que fala na obra e nem sempre corresponde à do autor. Contudo, é possível ver que “eu-lírico” é na verdade um pedaço do autor, maquiado pela arte em si. O “eu-lírico” feminino em Chico Buarque, ou em qualquer outro artista, pode ser, desta forma, alguém que ele admira ou rechaça, que lhe inspira e lhe provoca os sentidos. O erro está em encarar o “eu-lírico” como algo autônomo, simplesmente exposto no limiar da obra.
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Jorge Elô
Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.http://www.paraibanews.com/author/elojorge
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