Jorge Elô » Colunistas | Colunistas [d4]
Publicado em 21/10/2008 às 11:04 -
“Por que trabalhar com releituras de pintores clássicos?”
Discurso de abertura da exposição “CLÁSSICOS À NANQUIM”, que prosseguirá até o dia 01 de novembro, no Museu de Artes Assis Chateaubriand, em Campina Grande.
As obras dos artistas clássicos sempre foram uma temática que me interessaram. Porém, tenho que confessar que a idéia da exposição ocorreu meio por acaso. Acontece que minha esposa Oziella também é uma grande apreciadora da pintura, e desta forma, decidi produzir algumas releituras para ela. No começo, fazia em folhas A4, sem muitas pretensões estéticas, somente para presenteá-la. Após a execução de três gravuras, ela sugeriu que poderíamos fazer uma exposição, e a partir de então, passei a realizar as releituras em papel A3 Canson, utilizando-me apenas de lápis, borracha e uma caneta nanquim 0,5. Nada mais.
A escolha pelo uso do mínimo recurso possível estava ligada à idéia de que a arte não precisa ser elitista para ser bela e nem o artista necessita ser um privilegiado, nascido em berço de ouro. Acredito que a arte está ao alcance de todos àqueles que possuem sensibilidade para se expressar, independente da classe social ao qual estejam incluídos. O mesmo vale para o público que irá prestigiar a exposição, pois acreditamos que a partir desta, diversas pessoas poderão ter o primeiro contato com o universo da pintura clássica universal. Não é justo que somente um grupo seleto (denominado de “elite intelectual”) tenha acesso à emoção presente nos quadros dos pintores clássicos.
A escolha do tema também engloba uma crítica que faço ao estilo conhecido como Arte Contemporânea, que costumo chamar de “Arte Decorativa”. Trata-se do estilo que sofreu a influência de Marcel Duchamp, artista francês que viveu no início do século XX. A partir de então, telas abstratas, repletas de cores, passaram a ser consideradas arte e o universo do artista se estendeu a tudo que estivesse ao alcance de suas mãos. Ele passou a explorar diversos materiais e maneiras de criar, chegando ao absurdo do que hoje é conhecido como ‘Instalação’. Na verdade, o problema nem se encontra nessa transformação do artista e sim na frivolidade de suas obras e, acima de tudo, na falta de compromisso em ser compreendido. Como exemplo disso, encontramos na exposição uma releitura de Lèger, do seu quadro intitulado “Composição com Folha”. Tive a preocupação de colocar um artista como Lèger para que o público perceba os antagonismos entre seu quadro e os diversos outros presentes na exposição.
Quando tentamos fazer uma analogia com um artista como Van Gogh, que produziu mais de 800 obras e vendeu somente uma em vida, pode-se entender perfeitamente minha crítica. Embora recebesse pouca atenção em sua época, a dedicação dele foi total, ele acreditava no que fazia como eu acredito, posto que podemos perceber fragmentos de sua vida em suas obras, assim como em cada quadro exposto, está uma parte de mim e daquilo em que creio. Contraditoriamente, não consigo encontrar sentimento nas pinturas atuais. Talvez Lucian Freud. Parece-me que a ganância da vida contemporânea acabou por dissolver a arte em algo fugaz, vazio, com a única pretensão de que seja vendável.
A escolha das obras teve como primeiro critério a possibilidade da transição da técnica à óleo para a técnica à nanquim. Nem todos os artistas de que gosto dariam a possibilidade de fazer esse tipo de composição. Turner é um desses exemplos. Outro princípio foi a importância histórica do pintor retratado. Se bem que nem todos os artistas seguiram essa mesma proposta. Kunyoshi, por exemplo, pintor de estampas japonesas, talvez nem seja tão conhecido, mas foi escolhido pelo talento que possuía. Por fim, acredito que aquilo que predominou de fato foi a possibilidade de transição entre as duas técnicas.
Creio que Clássicos à Nanquim fará com que diversas pessoas que não conhecem as pinturas clássicas passem a conhecer e procurem se aprofundar no tema. Este é o meu maior desejo. Mas o principal é que essa exposição é fruto exclusivo do esforço de Oziella e meu. É verdade que contamos com o patrocínio das molduras e folderes da UEPB, além de alguns apoios para o vernissage, porém as idas e vindas que ocorreram até que a exposição se concretizasse não foram fáceis. A elaboração das obras custou-me quatro meses. Os outros cinco meses foram de batalhas para colocar as obras expostas. E acreditem, embora tenha passado três dias diante de uma obra para deixá-la pronta, nada foi mais difícil do que encontrar apoio para executar essa exposição aqui em Campina Grande.
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Jorge Elô
Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercício do existir. O resto é somente bônus.http://www.paraibanews.com/author/elojorge
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31/10/08 às 3:04
Parabens ao ParaibaNews pela matéria e a Campina Grande que pode deleitar-se com as obras do Jorge, infelizmente meu trabalho exige de mim ausência da cidade que aprendi a amar, CG, gostaria muito de ter prestigiado essa exposição, não deu, mas fiquei sabendo alguns dias antes, avisei aos meus amigos para conferirem.
E felicitações maiores ao artista e a Oziella, afinal ela foi o motivo das obras surgirem. rsrsrsrs
26/11/08 às 8:12
ainda somos civilizados e temos emoçoes em apreciar
uma obra refinada