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Publicado em 07/07/2008 às 7:01 -

Richarlison que o diga

Conta a Bíblia, no livro do Gênesis, que o Senhor deu a Adão o poder do livre arbítrio, para usar como quisesse a sua vontade e inteligência, ao trazer todos os seres vivos para que o primeiro homem lhes desse o nome que bem lhe aprouvesse. E o Senhor chamou do primeiro casal de Adão e Eva. Nomes simples – coisa de Deus. Já o ser humano, falível, passados os tempos, resolver perder a simplicidade. Talvez por vaidade, por orgulho, por burrice. E começou a inventar nomes complicados, amaldiçoando seus próprios filhos. Dando-lhes a penitência de passar a vida a ter que explicar o nome, a soletrá-lo.

Faço essa introdução porque tenho diante dos olhos a lista de aprovados no vestibular da Universidade Católica de Brasília e estou pasmo com os nomes que nem Deus nem Adão e Eva dariam a pobres mortais. Como se sabe, a maior parte dos nomes começa com A. Pois naquela lista, os que começam com K são uma terça parte do A! Pobre das Kamilas que têm que explicar que o nome começa com K. E as Karlas, as Karinas, e as Karol, as Karolines… Pior ainda é o Karlyson a ter que soletrar o nome por toda a vida, assim como a Kellem, a Kesse, a Keyla e sua quase homônima Keylla, a Kesia, a Kissima, a Kitéria, o Kleysson e o Kelvin. Pobres também da Marcella, da Marcelly e das Marcellas.

E olhem que estou me referindo apenas a uma lista de vestibular. O H e o Y também parecem ter sido feitos para que pais sádicos condenem seus filos à soletração. Vejo na lista dezenas de Mayaras, Rayanes e Rayannes. E também a Shenia, a Shirley Chrystine, a Syanne, o Stephan, a Stephanne; muitas Thais, a Thaísa, a Thalyssa, a Thayane, a Thayanna, a Thayse e sua quase homônima Thayze, cindo Rayans, duas Rayannes, um Raynan; Pricylas e Pricyllas; muitos Matheus e Raphael. E as que precisam explicar que são Jaqueline, Jackeline, Jacqueline e Jackelyne…

Nem acho estranho homenagear grandes personagens da história convertendo os sobrenomes deles em nomes. Na lista do vestibular há um Shelley, homenagenado o grande poeta romântico inglês, Percy Shelley; há um Welligton, para lembrar o general inglês Arthur Wellington, herói de Walterloo, que é outro nome aprovado no vestibular. Existem vários Nelson, do almirante Horatio Nelson, vencedor em Trafalgar; um Lincoln, para lembrar o presidente da guerra civil Abraham Lincoln. Não encontrei nenhum Newton, entre os aprovados – a homenagem a Isac Newton, que formulou a lei da gravidade; nem Franklin, de Benjamin Franklin, o homem da constituição americana e dos inventos(pára-raios, óculos bifocais); tampouco vi Lavoisier, em homenagem ao físico Antoine Lavoisier. Interessante que o nosso Vanderlei deve ter vindo do sobrenome holandês van der Ley. Conheço até um Geisel como prenome.

 

Acho estranho é misturar nomes de ancestrais. A avó paterna Carmen e a vó materna Maria foram homenageadas com um netinha chamada de Carmaria. Um pai criativo inverteu o nome simples “Severino” e deu no Oinareves, deputado pelo Paraná. Obstetras de hospitais públicos do Distrito Federal, em ações individuais, ainda tentam demover mães e pais de fazerem um ser humano carregar por toda a vida um nome como Jonquenedi, ou Valdisney, Maikeljecson e por aí vai. Mães e pais renitentes respondem que não vão usar João, José, Pedro ou Paulo, “porque são nomes de pobres”. E acabam usando nomes que vão acabar nos nossos gramados do futebol. O Rycharlison que o diga.

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Alexandre Garcia

O jornalista Alexandre Garcia começou no rádio aos sete anos, fazendo papéis infantis em radionovelas. É formado em primeiro lugar nos três anos do curso técnico de Contabilidade e no vestibular em todo o curso, na PUC/RS, onde depois lecionou. Foi correspondente no exterior pelo Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses. Foi diretor da TV Manchete e diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo Repórter e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas revistas mensais e mantém coluna semanal em 15 jornais. Tem comentários diários em 170 emissoras de rádio. Faz palestras pelo Brasil. Cobriu três guerras(Angola, Líbano e Malvinas) e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império Britânico. Foi enviado especial no Peru, Paraguai, Colômbia e Chile. E correspondente especial na Argentina e Uruguai. Agraciado com 15 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília, como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o Poder Legislativo outorgou-lhe o título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da Notícia, que vendeu mais de 60 mil exemplares e está na 11ª edição.

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