Alexandre Garcia » Colunistas | Colunistas [d1]
Publicado em 21/07/2008 às 9:07 -

Só o padre balonista

Passei férias na Penísula Ibérica. Uma semana em Portugal e quatro na Espanha, países que fazem parte das nossas raízes. Portugal nos descobriu e fomos colônia da Espanha, quando o Rei da Espanha era rei de Portugal. Pois não há como não comparar o Brasil com suas raízes. Gostaria muito, por exemplo, de que as estradas e o asfalto brasileiro tivessem 20% da qualidade das estradas portuguesas. Desci do carro para verificar a espessura do asfalto na Espanha. Uns 30 centímetros. No meio rural, nas estradinhas vicinais, um palmo. No Brasil, é só aquela casquinha que se dilui com a chuva e abre com o peso dos caminhões. Na Espanha, o ano passado, morreram 539 pessoas em acidentes de trânsito. Onze a mais que no ano anterior. Os jornais consideram esses números assustadores. Pois isso equivale a três dias de mortes no trânsito brasileiro. E lá circulam mais veículos que no Brasil.

Gostaria também que nossas cidades tivessem um décimo da segurança das cidades ibéricas. Só ontem, no Rio, voltei a ouvir notícia de assalto a mão armada. Nessas cinco semanas, li os jornais de todos os lugares onde estive, e nunca vi notícia de assalto a mão armada. Eu mesmo fui vítima de batedor-de-carteira no metrô de Lisboa, mas assalto à mão armada, não existe. Andamos tranqüilamente pelas ruelas e becos das cidades medievais e dos bairros históricos das maiores cidades e a segurança é absoluta, a qualquer hora do dia ou da noite.

Em Portugal e na Espanha não há crista de elevação sem cataventos. São Milhares deles. Talvez mais de um milhão. Para produzir energia elétrica. O vento é de graça. Não fica resto, não polui, o pedestal da hélice não ocupa espaço; só se gasta o investimento inicial. O Brasil tem vento mas também tem cabeças-de-vento, pelo jeito. Nas calçadas de todas as cidades, os ATM, o bancos eletrônicos, que funcionam a qualquer hora da madrugada. Aqui no Brasil precisam ficar escondidos dentro de estabelecimentos, ou serão levados pela bandidagem. Crime, na Espanha, é marido matando mulher… Mas também vi prefeito sendo preso por corrupção. Eles também têm os Pitta.

E alguns hábitos culturais que incomodam. O excesso de cigarro, embora esteja em vigor legislação restritiva. A quantidade de chiclete que os ruminantes deitam(como diriam os portugueses) às calçadas, deixando marcas negras no passeio e grudando nas solas de nossos calçados. Também o hábito barulhento de arrastar tudo que possa ser carregado e uma nojeira no desayuno: a mania de molhar a fatia de pão no café-com-leite e depois chupá-lo. Em compensação, outros hábitos bem saudáveis: crianças são vestidas como crianças e não como adultos sensuais. Aqui no Brasil, a cultura televisiva fez pais de miolo mole caírem na tentação de tornar suas filhinhas em adultos precoces. Isso ajuda a explicar a gravidez de mais de um milhão de adolescentes por ano.

Enfim, as cidades portuguesas e espanholas são organizadas, bonitas, bem cuidadas, limpas(as ruas são lavadas à noite), quase sem barulho, seguras, com transporte público eficiente, com um excelente esquema de lazer. Como os povos são parecidos, diferentes devem ser os administradores. Não há como não concluir que a incompetência está aqui, sejam quais forem os nomes e os partidos. Lula é o presidente latino-americano mais bem avaliado pelos espanhóis, mostraram estatísticas da semana passada, mas o Brasil é desimportante por lá. A única notícia daqui que encontrei nos jornais de lá foi o achado do corpo do padre balonista. As outras esquisitices, eles não se dão ao trabalho de noticiar.

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Alexandre Garcia

O jornalista Alexandre Garcia começou no rádio aos sete anos, fazendo papéis infantis em radionovelas. É formado em primeiro lugar nos três anos do curso técnico de Contabilidade e no vestibular em todo o curso, na PUC/RS, onde depois lecionou. Foi correspondente no exterior pelo Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses. Foi diretor da TV Manchete e diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo Repórter e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas revistas mensais e mantém coluna semanal em 15 jornais. Tem comentários diários em 170 emissoras de rádio. Faz palestras pelo Brasil. Cobriu três guerras(Angola, Líbano e Malvinas) e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império Britânico. Foi enviado especial no Peru, Paraguai, Colômbia e Chile. E correspondente especial na Argentina e Uruguai. Agraciado com 15 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília, como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o Poder Legislativo outorgou-lhe o título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da Notícia, que vendeu mais de 60 mil exemplares e está na 11ª edição.

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