Alexandre Garcia » Colunistas | Colunistas [d1]
Publicado em 01/08/2008 às 7:24 - 327 exibições
Tá tudo dominado
Entender a desorganização social do Rio de Janeiro não é difícil. Começou com a convivência com os bicheiros, sustentados pela população que joga no bicho. Depois, os bicheiros dominaram a principal festa da cidade, o carnaval. Bicheiro “dá emprego e faz o bem.” Quase um Robin Hood para os cariocas. Depois, vieram os traficantes de drogas, sustentados pelos viciados da zona sul. Para garantir seus territórios, os traficantes passaram a comprar armas de guerra. E dividiram a cidade em países autônomos.
Por fim, chegaram as milícias, o braço ilegal das autoridades. Secretários de segurança nascidos no Rio de Janeiro, como os demais nascidos lá, julgaram tudo muito natural, porque, afinal, cresceram sob a cultura da apologia do malandro, da esperteza, do jeitinho.
Todos sempre acharam muito natural tudo isso, porque afinal, todos têm o hábito de julgar o cumprimento da lei coisa exótica, para estrangeiros. Bicheiros, traficantes, milícias, para o bom-carioca, são todos Robin Hood.
Passei as últimas duas semanas trabalhando no Rio, hospedado num hotel da zona sul, num bairro que eles dizem ser de classe média alta, Ipanema. Foi em Ipanema que vi mães ensinando os filhos a atravessar a rua com o sinal fechado para pedestre; classe média alta estacionando o carro sobre a calçada; veículos de todos os tipos passando o sinal vermelho e parando no verde, como na piada. À noite, gritaria nos bares e buzinas até a madrugada, e veículos transitando com faróis apagados. Tudo muito natural para o Rio de Janeiro. Quando perguntava pelo cinto de segurança escondido sob o assento traseiro do táxi, o motorista explicava: “Aí atrás não precisa”. A lei está revogada no Rio de Janeiro.
Agora, depois de torturarem e matarem um jornalista, estabeleceram sua própria Lei de Imprensa, com censura prévia: mandaram apagar, no domingo, as fotos e vídeos que registravam a recepção de traficantes a um candidato a governador. Afinal, o domínio de seu território coroa-se com o mando do voto, a ressurreição do voto de cabresto, tal como na República Velha. 500 mil eleitores estão sob o domínio dos que mandam nos morros, há décadas. Só se ficou sabendo disso agora, porque apareceu um secretário de segurança de fora, que, sem a cultura carioca, escandalizou-se com o que viu e tratou de combater esse poder estranho às leis brasileiras.
Não está fácil para ele. Esta semana disse algumas verdades e foi contestado, como se estivesse ofendendo a população. É considerado uma figura exótica, porque, afinal, se vencerem a guerra – ele e o governador que o nomeou e apóia – há o risco de a Lei submeter a cidade inteira. E como tudo está dividido entre uma população sem hábito de cumprir as leis mais elementares e os fora-da-lei propriamente ditos, há uma reação grande. Esse secretário, se vencer o tráfico e a milícia, pode querer submeter à lei todos os demais foras-da-lei, autodenominados gente-de-bem. Aí, pode acabar o esperto, o malandro. O turismo pode expulsar a escória americana e européia que vem para fazer aventuras sexuais. A lei passando a vigorar vai deixar tudo muito chato, muito civilizado. Viver na bagunça é tão melhor, embora se morra mais rápido e se viva muito mal. Mas quem nunca viveu bem, nem nota, mesmo sabendo que está tudo dominado.
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Alexandre Garcia
O jornalista Alexandre Garcia começou no rádio aos sete anos, fazendo papéis infantis em radionovelas. É formado em primeiro lugar nos três anos do curso técnico de Contabilidade e no vestibular em todo o curso, na PUC/RS, onde depois lecionou. Foi correspondente no exterior pelo Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses. Foi diretor da TV Manchete e diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, Globo Repórter e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas revistas mensais e mantém coluna semanal em 15 jornais. Tem comentários diários em 170 emissoras de rádio. Faz palestras pelo Brasil. Cobriu três guerras(Angola, Líbano e Malvinas) e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império Britânico. Foi enviado especial no Peru, Paraguai, Colômbia e Chile. E correspondente especial na Argentina e Uruguai. Agraciado com 15 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília, como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o Poder Legislativo outorgou-lhe o título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da Notícia, que vendeu mais de 60 mil exemplares e está na 11ª edição.http://www.paraibanews.com/author/alex
mercury@terra.com.br
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22/09/08 às 5:26
Fiquei feliz, quando encontrei este endereço, mas de imediato verifiquei que não é o local mais adequado para visitar. Quando me deparei com o colonista, disse colonista,
há muito que este sr. não é colunista.
Os comentários do sr. Alexandre no Bom Dia Brasil, chegam a ser redículos, parciais.
Ouvi-lo ou ler matérias suas, nada me acrescenta.
E como as opiniões do colonista, não represntam a PARAIBANEWS, voltarei a visitar.
01/10/08 às 6:16
Alexandre Garcia!
Um dos poucos que ainda se atreve a falar o que pensa e não o que agrada.
O poder não gosta de colunista que fala o que pensa. No Basil hoje vale a máxima de só pode falar se for bem.
E alguns vassalos se curvam para lamber as botas de corruptos e corruptores que detém o poder.
Minhas manhãs não seriam as mesmas sem Alexandre Garcia para falar por mim.
18/10/08 às 12:00
O pior de tudo é que esse comentário do Garcia pode ser estendido para todo o Brasil. O jeitinho é ‘brasileiro’, não só ‘carioca’, sem bem que eles tem a paternidade.
Pra falar bem a verdade, acho que o Alexandre Garcia ainda ameniza. Todos nós sabemos que o Brasil é um país de corruptos (ativos e passivos) e que as bases da nossa sociedade estão corrompidas.
A maioria não fala porque tem ‘mea culpa’ e não pode atirar a primeira pedra, ou perde a condição de se aproveitar da situação, tão logo dê para puxar a sardinha para o seu lado.
Vivemos numa sociedade medíocre, que suspira pelo cumprimento das leis, quando elas servirem para justiçar os outros, mas que fecha os olhos e dá as costas para quem tem coragem de ser ético, moral e justo.
Francamente!!!…