Jorge Elô » Colunistas
Publicado em 07/03/2008 às 12:09 -
Tão surreal quanto os bigodes de Dali
Salvador Dali (1904-1989) foi um artista excêntrico e polêmico. Sua obra retrata um mundo de sonho, repleto de figuras bizarras e exageradamente deformadas, tudo elaborado com destreza e extrema qualidade plástica. Tendo como ênfase o poder do inconsciente na produção artÃstica, a obra de Dali (assim como a de outros artistas do mesmo perÃodo) representa o esforço em dar uma nova significação à realidade da época, até então sobre forte influência do discurso racional e cientificista, que valorizava o consciente, o objetivo e o concreto.
Esse discurso racionalista (positivista, cientificista, ou seja lá qual o jargão a se utilizar para denominar esta fase), predominou principalmente no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Passou a ser questionado e atacado, de forma mais enfática, após a brutalidade e ferocidade com que a Europa foi devastada em duas guerras mundiais, guerras justificadas e baseadas exatamente neste discurso. Diversos movimentos buscaram tranformar a maneira de olhar para a realidade, entre eles, o movimento surrealista, ao qual Dali fez parte.
O Surrealismo teve inÃcio primeiramente em Paris, nos anos vinte, tomando posteriormente grandes dimensões e influenciando importantes artistas da época. Seu principal teórico e lÃder foi o poeta, escritor, crÃtico e psiquiatra francês André Breton (1896-1966), que em 1924 publicou o primeiro Manifesto Surrealista. Dali, como já foi dito, integrou este movimento, mas por motivos polÃticos, foi expulso em 1939. A partir disso, passou a declarar: “O surrealismo sou eu”. E de fato, sua própria personalidade era surreal, a contar pelo seu extravagante bigode armado.
Dentro do mundo de sonhos que é sua obra, podemos encontrar temas extremamente atuais. “A face da guerra” (1940) carrega toda angústia e aflição do ser humano, perdido em meio à insanidade que os conflitos bélicos possuem. O rosto que sofre, reflete dentro de si outros rostos sofredores, semelhante a um fractal, repetindo infinitamente a dor e o sofrimento que as campanhas militares encerram.
Tentar ver o mundo através dos olhos surreais de Dali não é tarefa assim das mais difÃceis. Ultimamente, tudo parece tão surreal que não nos surpreendemos facilmente com mais nada que possa acontecer de “anormal”. Um mundo onde bilhões passam por privações para que alguns esbanjem, não nos parece diferente do “Canibalismo de Outono”(1936), pintado por Dali. Cotidianamente, devoramos uns aos outros e ficamos satisfeitos quando notamos que o sangue no caminho não é o nosso. Trata-se de alguém que foi devorado, enquanto contemplava a vida como se fosse uma obra de arte, pintada por alguém tão sádico como foi Salvador Dali.

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Jorge Elô
Jorge Elô é historiador - graduado pela Universidade Estadual da ParaÃba (UEPB) - quadrinhista, artista plástico e poeta. Também é ilustrador da revista de poker Card Player Brasil, embora não entenda nada de carteado. Publica suas aventuras em quadrinhos no blog www.aventurasdavidacomum.blogspot.com e em periódicos diversos, a exemplo de "O Cometa Itabirano" de Minas Gerais. Acredita na existência. Dedica todos os seus dias ao exercÃcio do existir. O resto é somente bônus.http://www.paraibanews.com/author/elojorge
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