Célia Leal » Colunistas | Colunistas [d2]
Publicado em 03/09/2008 às 13:17 - 112 exibições
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Zezita Matos: “Adelante companheira”

Atriz completa 50 anos de carreira e diz que ainda há muito a aprender.

A atriz Zezita Matos é merecedora de todas as homenagens. Ao completar meio século de vida artística incorporando tantos personagens ela quase se confunde com a sua história pessoal. Quando propus esta entrevista e sugeri, logo na primeira pergunta, que fizesse um breve balanço dos seus 50 anos de carreira ela “sentiu em sua cabeça um imenso burburinho” e disse que não seria uma tarefa fácil resumir as cinco décadas dedicadas à arte de representar. Ela conseguiu. Vejam na entrevista a seguir quem é esta talentosa atriz que desafiou a ditadura, driblou a censura e até hoje presenteia o público paraibano, com sua atuação nos diversos espetáculos teatrais e também nas telas do cinema através dos tantos filmes em que atuou.

1.Cinqüenta anos de carreira e muita história pra contar. Faça um breve balanço destacando os momentos mais marcantes da sua vida teatral?
ZM = Sinto na minha cabeça um imenso burburinho. Não é tão fácil resumir cinco décadas dedicadas à arte de representar. Acredito que o tempo vivido, as emoções, a aprendizagem que fiz não cabem no tempo que vou racionalizar, aprisionar numa resposta; transcende, portanto, a este breve balanço, até porque é minha vida. Finais da década de 50, minha família saía da pacata cidade de Pilar com destino à capital. Com esta mudança, eu deixava de ser aluna interna do Colégio das Damas, em Campina Grande, para passar por uma total reviravolta na minha vida, isto é, ser aluna do Liceu Paraibano. Um novo mundo se apresentou diante de mim, conhecendo os jovens que mais tarde fariam parte dos escritores, escultores, pintores, poetas, ensaístas, cineastas, isto é, da conhecida geração 60, entre eles: Jurandi Moura, Marcos dos Anjos, Wladimir Carvalho, Breno Mattos, Ednaldo do Egypto, José Bezerra, Guilherme Caldas, Manfredo Caldas, Raul Córdula, Vanildo Brito, Antonio Lucena, e tantos outros. Algumas dessas figuras faziam parte do Grupo de Teatro Popular de Arte que seria meu primeiro ancoradouro tanto da arte como da política. Tudo foi como num passe de mágica, Juventude Comunista, Ligas Camponesas, Movimento de Cultura Popular, Teatro de Rua, Campanha de Educação Popular-CEPLAR , Alfabetização de Adultos, aulas aos sábados com Paulo Freire, foi aí onde a atriz iniciou também sua história como educadora. Golpe de 64. Há um silêncio em relação à ação política, mas o teatro e a educação serviriam de escudo para sobreviver aos dias `negros` e também para driblar a censura. Aproveitei o recesso político para casar e ter meus três amados e queridos filhos e, para variar, em cada gravidez participei de um espetáculo. E assim, fui conduzindo um fazer que só tem me enriquecido enquanto ser humano.
2.Que peso tem para você esse titulo de primeira dama do teatro paraibano?
ZM= Não o sinto como peso, até porque, esta alcunha foi posta pelo meu amigo e diretor Everaldo Vasconcelos, no período da minha gestão como Diretora do meu querido Santa Rosa e, também, por ter sido até hoje a primeira e única mulher a ocupar este cargo. Daí então, suponho que o título foi pegando talvez pelo fato de nunca ter me ausentado do processo teatral paraibano como atriz, é uma suposição.
3.Você faz diferença entre atriz de teatro e de cinema? Em qual você se realiza mais?
ZM=O cinema e o teatro utilizam duas linguagens diferentes que requerem do ator formas diferentes de atuar e, depois de ter experienciado as duas, posso confessar que sempre amei o fazer teatro pelo que ele tem de risco e de efêmero, o aqui e agora, enquanto o cinema tem o que chamo de mágico para o ator, capta a essência daquele momento e a retém, é fantástico. Sem esquecer nem diminuir a dimensão política que eles contêm.
4. Você contracenou nos filmes Menino de Engenho (Walter Lima Jr, em 1965), em Alma, de André Morais e em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, em 2005. Qual deles te exigiu mais como atriz e por quê?

ZM=Como atriz, nestes filmes e também em outros, os seus diretores exigiram sempre o melhor que eu podia render, mesmo assim, fica para mim a sensação, por ser muito exigente comigo mesma, de que poderia ter feito bem melhor. Isto não está relacionado com o tamanho do personagem. Para mim, tanto no cinema quanto no teatro, o que conta é a qualidade da atuação e não o tamanho do papel. Não resta dúvida, se você é a protagonista, o trabalho é mais árduo em todos os sentidos.
5.O teatro paraibano tem revelado excelentes atores e atrizes. A que você atribui tanto talento já que a Paraíba é um Estado geograficamente distante dos grandes centros?

ZM=Nunca parei para pensar nisto, mas honestamente, creio que, se é verdade esta informação, ela seja circunstancial. Por exemplo, em Recife, aqui bem perto, há uma gama de atores e atrizes maravilhosos. Talvez, quem sabe, à distância dos grandes centros, onde sabemos que o mercado de trabalho, a concorrência, o individualismo, o narcisismo são bastantes acentuados, venha de fato nos beneficiar, no que diz respeito às produções menos despretensiosas quanto ao uso da técnica pela técnica e mais substanciosas no experimento do fazer teatral que podemos realizar.
6. Depois de 50 anos de carreira, você já pensou em dirigir algum espetáculo?

ZM=Não. Eu gosto mesmo é de ser atriz. Inclusive, tenho especialização em Direção Teatral. Aliás, a primeira que aconteceu na Paraíba, um intercâmbio entre a UFPB e UFRJ. No entanto, nunca senti essa vontade de dirigir. Ao longo desta caminhada, as minhas experiências nesta área se restringem à assistente de direção de Fernando Teixeira, na montagem da “Donzela Joana” e, no filme “Baixio das Bestas” de Cláudio Assis que trabalhei na preparação dos atores.
7.Você disse numa ocasião que não sonha com nenhum papel específico e que quer todos que lhes forem dados a interpretar.Isso significa dizer que Zezita Matos não tem idade para se aposentar neste campo da sua vida?

ZM=Sim, é assim que penso, pelo menos neste momento da minha carreira como atriz. Por que pensar em parar quando sinto que há muita coisa para aprender e para se fazer diante de mim? O lema é: adelante companheira!
8. Qual foi seu primeiro papel? Conte um pouco como aconteceu a sua estréia no teatro.

ZM=Exatamente em agosto de 1958, fui convidada para o Grupo de Teatro Popular de Arte e participar do elenco do espetáculo a “Prima Dona” que estavam montando. Não relutei, enfrentei o desafio da censura da época e de alguns familiares que alegavam: moça de família que estudou no Colégio das Damas não podia se misturar com quem faz teatro. Misturei e, hoje, concluo que vencer o preconceito foi mais fácil do que vencer as dificuldades de arranjar verba para a montagem. Este sim continua sendo de fato um problema até hoje. Retomando ao espetáculo, o interessante é que o meu personagem era uma “ponta” e eu estava muito satisfeita. Já próximo da estréia, atriz principal teve que se afastar e fui informada que a substituiria. Foi um pânico, um temor, tamanho era a tarefa que me colocavam. Este fato, logo me fez compreender que fazer teatro era mais que um passatempo, um fazer por fazer. A responsabilidade assim como a generosidade são características que devem pautar a carreira do ator. Destaco este fato por ser o primeiro de tantos outros que, sem dúvida, viriam servir de arcabouço para uma carreira construída sem freqüentar nenhuma escola de arte dramática, a não ser a aprendizagem adquirida em cada uma das montagens que participei até o presente. A estréia da “Prima Dona” aconteceu no Teatro Santa Rosa. Foram vários diretores, muitas experiências acumuladas durante esta travessia. Em 2007, tive o privilégio de vivenciar com o Coletivo de Teatro Alfenim o trabalho de estudo e de pesquisa sobre o teatro épico-dialético para a montagem do “Quebra-Quilos”, dirigida por Márcio Marciano, que vem sendo bem recebida nos festivais e cidades que estamos apresentando. No momento, já estamos dando inicio a uma pesquisa para o próximo trabalho.
9.Quantos personagens já “testaram” e exigiram do talento de Zezita até o momento?

ZM=No teatro, fiz trinta e quatro espetáculos, no cinema, entre curtas e longas, fiz dez dos quais três serão lançados até o final do ano.
10.Qual deles você sente saudade e qual o que você não quer nem saber?

ZM=É interessante, para cada um deles tive e guardo um carinho e uma história particular, quem sabe ainda irei registrar. Foram momentos de busca, de sofrimento, de entendimento, de diálogos contraditórios, de medo, de concessão, de descobertas e de muita aprendizagem, até de raiva para que chegassem próximo do que desejava.São todos minhas relíquias.
11.James Dean, Sophia Loren são alguns dos seus ídolos mas em quem você se espelhou na hora de atuar?

ZM=Eles estavam num universo tão distante e diverso do meu que não guardo nenhuma lembrança de que eu fizesse qualquer tipo associação ou relação com o meu trabalho. Apenas, era fã de carteirinha e de colecionar fotos deles.
12.No palco, o que é mais difícil: fazer chorar ou sorrir (gargalhar)?

ZM=Qualquer uma das alternativas desde que feitas com qualidade são difíceis. Ambas requerem do ator um trabalho que contém as mesmas exigências enquanto fazer teatral.
13. No cinema, como espectadora, qual a sua preferência: dramas, romântico, aventura, ficção, comédia ou policial e por que?

ZM=Tanto o drama como a aventura sempre me emocionaram, talvez pelo fato de que, quando criança, assistia aqueles famosos dramas e ficava deslumbrada. Os seriados de aventuras uma vez por semana ou de quinze em quinze dias me deixavam com a imaginação solta enquanto esperava o final. Atualmente, o filme sendo bom vale qualquer gênero.
14.Você é uma pessoa alegre, pra cima?Isso tudo é porque está completando meio século de carreira ou você sempre foi uma pessoa de alto astral??

ZM=Não tenho do que reclamar por está completando estas cinco décadas dedicadas ao teatro. Uma coisa é certa, o percurso foi bastante prazeroso apesar de alguns percalços, daí porque parafraseando Gonzaguinha “começaria tudo outra vez”….
15.Você já escreveu roteiro para espetáculo teatral ou para cinema?.Pensa nisso?

ZM=Ainda não…..e não…..mas quem sabe….talvez…..

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Célia Leal

Célia Leal - Jornalista e Relações Publicas, graduada pela UFPB. Como repórter durante 15 anos, foi premiada algumas vezes. Já tendo atuado com destaque nos jornais A União, Correio da Paraíba e O Norte, além ter assessorado vários sindicatos, políticos e ONG,s. Também foi produtora e editora da Revista Mosaico, redatora do Portal Correio e do telejornal Cidade Revista.

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jornalista.celialeal@hotmail.com

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